10 de setembro de 2012

Jogador Nº1 [Resenha #068]

 
Jogador n 1Sinopse: Cinco estranhos e uma coisa em comum: a caça ao tesouro. Achar as pistas nesta guerra definirá o destino da humanidade. Em um futuro não muito distante, as pessoas abriram mão da vida real para viver em uma plataforma chamada Oasis. Neste mundo distópico, pistas são deixadas pelo criador do programa e quem achá-las herdará toda a sua fortuna. Como a maior parte da humanidade, o jovem Wade Watts escapa de sua miséria em Oasis. Mas ter achado a primeira pista para o tesouro deixou sua vida bastante complicada. De repente, parece que o mundo inteiro acompanha seus passos, e outros competidores se juntam à caçada. Só ele sabe onde encontrar as outras pistas: filmes, séries e músicas de uma época que o mundo era um bom lugar para viver. Para Wade, o que resta é vencer – pois esta é a única chance de sobrevivência. A vida, os perigos, e o amor agora estão mais reais do que nunca. O Jogador nº1 também estará nas telas pela Warner, e sua produção está sendo divulgada como o próximo AVATAR dos efeitos especiais!
Se você cresceu nos anos 80/90, Jogador Nº 1 é como passar um fim de semana em um grande parque de diversões. Se você é fã de quadrinhos, filmes, séries, tokusatsus, mangás, games, música e mais uma porção de coisas da época sua experiência será ainda mais recompensadora. Nas páginas do livro vai rememorar grandes momentos da infância e o melhor de tudo, naquele que é o grande sonho de quase todos os nerds jogadores de videogame: dentro de um game pra lá de realista.
 
Em minha mania de não ler sinopses, Jogador Nº1 acabou escapando da minha atenção no lançamento, e só muito depois acabei lendo uma resenha sobre ele. Em um distópico futuro nem tão distante, 2044, Wade Watts é mais um adolescente que vive em um trailer às margens de uma megacidade, superpopulosa e poluída. As condições de vida são tão ruins que a maioria das pessoas passam os dias em um MMORPG, um jogo on-line para múltiplas pessoas que lhes proporciona uma imersão total no que acontece no game. Assim, se você vive na miséria na vida real, pode ser um mago ou cavaleiro online, não sendo, por fim, tão difícil fazer uma escolha sobre qual vida levar, um tipo de Matrix.
 
O jogo, chamado OASIS – nome mais que adequado, pois é assim que seus usuários o veem frente ao mundo real – se torna um grande sucesso, de tal forma que a moeda usada nele pode ser convertida em créditos para ser usado off-line, e até mesmo se cria dentro da simulação escolas, empregos, toda uma estrutura social que permite que seus usuários passem o menor tempo possível deslogados, então gradativamente a troca entre a vida na realidade e a vida online vai sendo feita por mais pessoas, aumentando ainda mais o contingente de jogadores.
 
Acontece que o criador do jogo envelhece e morre. Sem herdeiros, cria um grande desafio que teria como prêmio o controle absoluto da empresa que detinha os direitos do jogo, fazendo deste jogador um multimilionário com uma gigante nas mãos. A partir daí conhecemos mais sobre os jogadores, entre eles Wade, que no OASIS assume o controle do personagem Parzival, e que é o grande protagonista do livro, e também Aech – que pronunciei o nome errado durante todo o livro, mas como já estava no terceiro terço decidi chutar o balde e continuar a ler errado mesmo, o que de forma alguma tirou a grandeza do personagem – Art3mis, Shoto e Daito. Claro que todos os nomes fazem relação a algo que é importante para os jogadores, e esta é quase que uma regra em jogos do tipo.
 
Mas se alguns jogadores jogam limpo em busca do grande prêmio, é certo que uma grande corporação é atraída para a disputa e faz tudo o que está ao seu alcance para conseguí-lo, e não apenas em território virtual. A IOI logo se torna o antagonista da disputa, o grande rival a ser derrotado, com seus meios escusos e violentos, que pontuam grande parte da ação na narrativa.
 
No entanto, a grande graça do livro consiste em reconhecer as menções que são constantemente feitas. De cabeça, são feitas algumas menções a Atari, Kamen Rider, Nintendo, Caras & Caretas, Tyler Durden, Sega, Pac-Man, Donkey Kong, De Volta Para o Futuro, Mathew Broderick, o computador Apple II e tantas outras que quase fiquei aguardando uma ao menino do oito, mas claro que não veio. O autor, Ernest Cline, brindou o leitor com tantas informações e com um conhecimento de cultura pop tão vasto que é impossível não sentir uma pontada de inveja, mesmo que grande parte da população vá achar que se trate de cultura inútil. Discordo, tem de ser matéria de concurso, já!
 
Deixando a fanboyzice um pouco de lado, um dos pontos que me chamou a atenção na narrativa foi uma certa dissociação da imagem – é uma palavra forte mas não consigo pensar em outra – que os usuários do jogo apresentam. Raramente seus avatares refletem sua imagem real, pois, se lembrarmos que no contexto histórico ficcional do livro o OASIS é uma realidade alternativa bem mais agradável que a do mundo real, emulando dezenas de mundos paradisíacos e cheios de atrações que nem se pode comparar com as apresentadas pela realidade que a Terra se tornou,  faz todo o sentido que seus usuários, dentro da simulação, atribuam a seus personagens características que de certa forma supram “deficiências” que possuem como pessoas reais: quem tem problemas de peso faz um ajuste, assim como os que tem de altura, ou mesmo de gênero.
 
E isso é muito comum nos jogos de múltiplos jogadores pela internet. Atrás desses avatares, podem até mesmo assumirem uma nova identidade comportamental: o tímido passa a ser extrovertido, o homem passa a ser uma mulher (no mundo dos games online avatares femininos ganham mais simpatia – lê-se itens e ajuda – de outros avatares) e nos leva a antiga questão de que nunca se sabe quem está do outro lado do monitor, e o fato de que os usuários do OASIS  fazem questão de serem anônimos mostra que o autor se preocupou em levar este aspecto também para sua narrativa. Mais um ponto pra ele.
 
Mas existem alguns problemas técnicos: alguns termos ficaram estranhos quando traduzidos, e muitos deles nem precisavam terem sido. Alguns exemplos são: dungeon, que virou calabouço; XP (experience points), que virou EP (pontos de exeriência); drop que foi traduzido como “deixava/largava”, mas que pelos gamers é aportuguesado para “dropar”. Mas o exemplo mais gritante é easter egg (algo raro deixado pelos programadores dentro de um jogo, pode ser um item, uma passagem, uma frase, qualquer coisa) que foi traduzido para “ovos de Páscoa”. Eles não chegam a atrapalhar a leitura, mas o leitor mais chato, feito eu, vai notar.
 
Cline criou uma aventura nerd sem precedentes. Rápido, emocionante, nostálgico, maravilhoso. Wade é meu herói e de todos os demais garotos ruins demais no futebol mas que arrasavam no Tetris.
 
Jogador Nº1, de Ernest Cline (Ready Player One, 2011Tradução de Carolina Caires Coelho, 2012) 464 páginas, ISBN 9788580442687 Editora LeYa. [Comprar no Submarino]
 
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18 comentários:

  1. É muito fácil me arrancar lágrimas e sorrisos, mas aquele meio sorriso com o canto da boca é difícil, mas essa resenha conseguiu, não sei se vou ler esse livro porque games não fizeram parte de minha infância e adolescência, minha nerdice nessa época era papel mesmo.... Mas fizeram parte das experiencias de meu irmão e do meu primo lendo lembrei deles, vc tem esse estilo de ser que me é muito familiar Luciano.

    E sim, a parte minha adolescência não ter sido povoada por games o mesmo não posso dizer da vida adulta... Poucas coisas relaxam mais que um universo alternativo com um monte de monstros para detonar :). Ah, a despeito de vc dizer que personagens femininos são mais auxiliados, eu diria que são mais assediados isso sim, odeio noob no meu pé! #Fato

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    1. Ah, jogo desde cedo por causa de meu irmão mais velho, meio que peguei carona e virei dã. Esse livro é muito especial, me fez relembrar bons momentos onde tudo era bem mais tranquilo que a correira de hoje em dia.

      Ah, concordo com você: não tem quem suporte noob ;) assim como minha maior alegria foi derrubar um top 10 no GTA ;)

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  2. Sempre tive muita curiosidade nesse livro, mas fiquei na dúvida e acabei não comprando. Ainda bem que sua resenha me lançou uma luz, porque agora decidi que quero essa leitura! Adoro quando livros trazem referências pop de forma tão classuda!

    Abraços

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    1. Lu, ele meio que me passou despercebido, até que me atraiu na primeira resenha. É muito bom, bem escrito, emocionante, viciante, vale muito a pena ler ;)

      Abraços.

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  3. Engraçado, já li resenhas sobre esse livro, mas nunca foi algo que tenha me chamado a atenção.
    Sei lá, joguei um tanto razoável de video game há uns anos(bomber man, pac man, tetris) e amava esses joguinhos normais, sem ser ps1,ps2 ou ps num sei das quantas.
    Mas nunca consegui gostar de quadrinhos, animês ou mangás(me batam)
    Talvez por isso, o livro não tenha me ganhado.
    Não digo que não vá ler, talvez em um outro momento. A premissa é ótima, mas acredito que seja questão de momento :)

    Beijo

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    1. Realmente, o livro faz mais sentido - ou diverte mais - quem está acostumado ou é fã do que é citado nele. É uma viagem!, muito bom mesmo ;)

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  4. Oi Lu,
    Com uma resenha contagiante dessa, mesmo sem entender totalmente de jogos, eu tenho um conhecimento que me deixa pelo menos ter conhecimento das palavras....e olha fiquei bem curiosa para conhecer esse livro, creio que o meu marido iria amar e o devoraria, já que ele só lê o que chama a atenção, referente a jogos e livros históricos.
    Beijokas elis!!!!

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    1. Elis, vale muito à pena ler este livro, é muito bem escrito e que tem uma boa base no assunto vai se divertir ainda mais. Quando e se puder leia, é muito bom ;)

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  5. Tá, eu comecei a ler esse livro hoje. Até estou estranhando isso, é só eu começar a ler um livro que venho aqui e tem resenha dele. Como assim, Luciano? Tá pegando minhas informações com quem? AHSAHUSHA
    Já vou ler o livro com a mente mais aberta por causa dessas traduções DESNECESSÁRIAS. Eu sou muito chata com isso e como uma gamer, não consigo entender o motivo de terem traduzido, já que esse livro vai ser lido em sua maioria por gamers, então fica meio chato, né?

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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    1. Hahaha, Luara, estamos com uma sintonia literária boa, rsrs.

      O livo é muito bom, mas esse pontos da tradução incomodam um pouquinho - estou certo de que a editora vai corrigí-los em uma próxima edição - mas não estragam a leitura não.

      Fico esperando sua resenha ;) Boa leitura.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Essa é a segunda resenha do livro que eu leio essa semana. E ambas, confirmam que o livro é excelente.
    Enquanto lia a resenha, o barulho de quando marcava pontos no tetris ressoava na minha cabeça, ashauaha
    É tudo tão nostalógico, saber das menções a grandes jogos, que a vontade de ler o livro só aumenta!

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    1. Lucas, se tiver a oportunidade leia! É um livro excelente, quem é gamer vai gostar ainda mais ;)

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  8. Típico livro que passaria despercebido aos meus olhos... Acho que minha curiosidade foi aguçada depois dessa resenha, haha. Apesar de não gostar muito de games e tals, tentarei le-lo quando tiver uma oportunidade ;)
    Bjs, Ruama.
    http://esquiloscorderosa-ruama.blogspot.com.br/

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    1. Ah, acho que se ler vai gostar, o livro é muito bem escrito meso. Vale a pena ;)

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  9. Eu adoro livros (ou outras obras tais como filmes) que fazem referências a outras obras, isso gera um jogo de cumplicidade entre o autor e o leitor. A cada referência que eu descubro e relaciono eu me sinto mais em sintonia com o autor, acho muito interessante.

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    1. Cris, o sentimento é este mesmo: sintonia. É muito bom quando identificamos uma referência, o livro parece ganhar vida ;)

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Oscar