4 de fevereiro de 2013

HHhH [Resenha #105]

HHhHSinopse: Himmlers Hirn heiBt Heydrich: O cérebro de Himmler se chama Heydrich. A sentença corrente entre os membros da SS permite vislumbrar os horrores vividos pela extinta Tchecoslováquia durante a ocupação nazista, quando o implacável chefe da Gestapo, Reinhard Heydrich, foi nomeado pelo Führer o "protetor" da Boêmia-Morávia, território incorporado ao III Reich durante a Segunda Guerra Mundial. Heydrich logo se tornou um misto de vice-rei e ditador, com absoluto poder de vida e de morte sobre os tchecos. Prisões em massa, torturas e execuções sumárias passaram a integrar o cotidiano dos habitantes da capital, que apelidaram seu novo senhor de "o carrasco de Praga". Esse é o cenário que serve de pano de fundo para que Laurent Binet, um apaixonado por Praga e pela história da resistência antinazista, escreva o eletrizante romance HHhH, em que ficção e realidade se confundem, colocando em evidência a natureza fugidia e multifacetada da verdade histórica. Até 1941, Jan Kubis e Jozef Gabcík não passavam de obscuros sargentos do Exército tchecoslovaco. No entanto, na primavera daquele ano - que marcaria o auge da expansão do império hitlerista -, o governo tchecoslovaco no exílio decide partir para o contra-ataque. As brutalidades cometidas contra a população tcheca seriam vingadas numa ação espetacular, cujo alvo era Reinhard Heydrich. Após uma rigorosa triagem, Gabcík e Kubis são os militares incumbidos dessa missão heroica, na prática uma empreitada suicida.

Tanto por sua dimensão quanto pelos horrores nela praticados, a Segunda Guerra Mundial rendeu diversos livros. É uma forma, muitos dizem, de se enaltecer os heróis que nela lutaram e, ao mesmo tempo – e talvez ponto mais importante – não se esquecer. Ninguém sai ganhando se uma grande tragédia é esquecida.

Tenho especial interesse por livros sobre a época. Com quase setenta anos de distância, lê-los é uma forma de tentar encontrar explicações que validem minimamente tudo o que foi feito  lá, apesar de não me enganar nem por um minuto, sei bem que nada justifica, tampouco irá me convencer disto. Mas foi tudo numa proporção tão grande – de carnificina e desatino – que apenas lendo parece ser real.

HHhH, escrito pelo francês Laurent Binet, conta a história do atentado cometido contra o protetor da Boêmia-Morávia, o “açougueiro de Praga”, Heydrich,  por dois militares infiltrados o país e que recebe ordens do exército tcheco-eslovaco sediado na Inglaterra, Gabcik e Kubis. A operação se chamava “Antropoide”.

Mas é na figura de Heydrich que boa parte do livro se apoia. “HHhH” significa, em alemão – e segundo o autor – algo como “o cérebro de Himmler se chama Heydrich”. Himmler, alto funcionário no escalão de poder do partido nazista, é tido como o segundo na hierarquia, atrás somente de Hitler, e se vê apoiado em seu “protegido”, por assim dizer, Heydrich, que também enxerga como um futuro e possível concorrente ao poder, com sua genial bestialidade.

Pois é isso que Heydrich é: um gênio. E não estou aqui jogando confete e aplaudindo, pois o que ele mais soube fazer durante a Segunda Guerra foi utilizar sua inteligência para os horrores operacionais que deram ao regime nazista a fama que tem.  Fora ele quem estruturara a rede de inteligência do regime, subjulgara Praga e boa parte da resistência que ali era ativa e, talvez sua “obra” mais conhecida: definira os parâmetros para a Solução Final.

O autor nos apresenta um garoto tímido, que sofre bullying na escola e, anos depois, é expulso da Marinha. Nem de perto se poderia imaginar o rastro de sangue que ele deixaria atrás de si, e o autor se permite – dizendo ser o único caminho justo para com o livro – humanizar seu personagem para que, assim, se possa entendê-lo – a ele, e, nunca, suas ações. Também acompanhamos o nazismo desde sua ascensão até o começo da queda, entendendo toda a estruturação de sua máquina de guerra e a importância que tinha, para eles os territórios ocupados e sua mão de obra.

E acho que esta é a grande diferença do livro frente a outros títulos apoiados na Segunda Guerra que já li. Apesar de ser um romance, ele segue uma linha bem diferente da de, por exemplo, “Exodus”, de Leon Uris, que optou por romancear passagens ao extremo, utilizando um fato real como pano de fundo. Binet fez o mesmo com seu livro, mas optou por maneirar a mão na ficção, e se limitou ao máximo a narrar os fatos como o descobriu através de sua pesquisa.

Em certo momento fica parecendo que “HHhH” é um livro sobre a composição de um livro – ele mesmo. Durante todo o texto o autor conversa diretamente com  leitor, falando para ele, se explicando, mas não há uma quebra de ritmo durante essas interações por já ser ele, reconhecidamente, o narrador, como se contasse informalmente toda a história a um ouvinte.

E ele se permite censuras para não adotar um tom ficcional demais em sua narrativa. Em diversos momentos reconhece que inventou algumas passagens e cogita deletá-las, e mesmo se recusa a fantasiar demais sobre fatos considerando isso um desrespeito à memória daqueles que participaram dos fatos.

É um pouco contraditório. Já que estava na chuva que dançasse como Gene Kelly.

Mas certamente os maiores personagens do livro são os paraquedistas que vão efetuar o atentado contra Heydrich. As ordens são claras: seriam postos clandestinamente dentro do país, receberiam alguma ajuda dos grupos de resistência contra a ocupação nazista, e deveriam matar Heydrich. A data do atentado deveria ficar por conta dos dois, no momento que se achasse uma oportunidade satisfatória, mas que não tivessem ilusões quanto a chances de escapar dele com vida, tendo sucesso na empreitada ou não. Por isso levavam consigo cápsulas com cianureto.

E assim vamos acompanhando-os.

O autor tem o dom da síntese e o agradeço por isso. Se cada pequena parte e personagem do livro dariam, por si só, uma grande história, o autor se limita aos fatos que culminaram no atentado e, mesmo que se repreenda por algumas omissões forçadas para que não se perca o foco, esta economia é muito bem vinda, e tem o mérito de não cansar o leitor por ser o livro quase que estritamente factual.

Dá para entender, mesmo que maiores doses de ficção fossem bem vindas.

Por isso “Exodus” é melhor que “HHhH”: os trechos de ficção dão ao leitor um panorama que permite que compreenda de melhor forma o que se passou.

Por isso “HHhH” é melhor que “Exodus”: por se limitar aos fatos históricos, com poucas divagações sobre o que se passou, respeita a memória de seus personagens, e não o reduzem a esfera do hipotético que Uris se permitiu.

Não há como não torcer por Gabcík e Kubis. Eles fizeram o que muitos teriam tido vontade de possuir coragem o suficiente para fazê-lo, não somente na época, mas mesmo agora, décadas depois. Se seus atos não puseram fim à guerra, ao menos são lembrados com respeito pelos cidadãos de seu país. Gratidão. Não é uma palavra que se lê muito hoje em dia.

 

HHhH, de Laurent Binet (HHhH, 2009Tradução de Paulo Neves, 2012). 344 páginas, ISBN 9788535920604 Editora Companhia das Letras. [Comprar no Submarino]

{B+}

13 comentários:

  1. Você as vezes sai com umas tiradas em suas resenhas Luciano que realmente fazem a diferença e dão outra qualidade ao texto... Só vc para citar Gene Kelly no meio de um livro sobre guerra!

    A parte isso sou desconfiada com esses livros que se pretendem históricos, porque encadear os fatos em sequencia utilizando documentos oficiais para isso ainda não é escrever História... Mas a titulo de conhecer mais uma interpretação dos fatos e personagens que marcaram a II Guerra e todo o horror pelo qual ela se caracteriza é sim uma boa pedida!

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    1. Ah, mas acho que isso vem da sua formação, você consegue enxergar os fatos com olhos que eu não consigo - e não sou educado para ver, rsrs.

      Geralmente me dou bem com livros do gênero, e este é um bopm exemplar deles.

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  2. Acredito que muitos HH hH participaram ativamente com suas inteligências sendo protetores ou exterminadores durante a Segunda Guerra. Admiro quem gosta de ler esses fatos históricos de uma época tão distante do seu tempo.
    Gostei da forma como coloca Exodus e HHhH sendo melhor em pontos diferente e isso os torna os melhores a meu ver.
    Não leio nada sobre a segunda guerra tem tempo.
    Li o menino de Pijama listrado que mostra um outro lado sobreos campos de concentração.
    'Otima resenha! Admiro quem gosta e é estudioso de leituras desse gênero.
    Beijos

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    1. Irene, é um tema sobre o qual gosto de ler, boas - e terríveis - histórias surgiram dele. Também li o "O Menino do Pijama Listrado", mas o personagem principal me irritou ao extremo, rs.

      Beijos.

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  3. A primeira coisa que eu me perguntei foi como se falava o nome desse livro. Você sabe Luciano? Porque eu não sei. o.o Vou falar: "AGÁ AGÁ AGÁ AGÁ". Enfim, não importa.
    Eu também gosto muito de livros que retratam a 2ª GM, por mais que retratem atrocidades, eu acho muito legal conhecer as estratégias, etc.
    Talvez não seja uma leitura pra agora, mas é uma possibilidade futura, com certeza.

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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    1. Ah, Luara, eu falo "agá agá agá agá" mesmo, rs, pois mandar um "Himmlers Hirn heiBt Heydrich" é bem mais difícil! Também gosto de livros sobre a época, por mais duros e que nos façam relembrar fatos horríveis, sua importância está justamente nisso: nos fazer lembrar.

      Beijo.

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  4. História, e em especial a segunda guerra mundial, é um assunto que me fascina. Quanto as obras que retratam a 2ºGM tenho algumas ressalvas, as obras se reproduziram de forma bastante acelerada, sem que tivessem sido acompanhadas por fatos e qualidades correspondentes. Pois bem, não parece ser esse o caso de HHhH. Tenho que admitir que a sinopse já foi suficiente para despertar meu interesse. Sua resenha contribui na medida em que demonstrou que HHhH não parece ser esse apenas mais um livro sobre a 2º GM, mas sim uma obra que retrata esse período e que vale a pena ser lida.

    Abraços
    Juan - sempre-lendo.blogspot.com.br/

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    1. Juan, acredito que existam livros e livros. Apesar de não ter lido tanto quanto gostaria sobre o assunto, os que peguei até agora não me deixaram na mão. Vale ler ;)

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  5. Julgando pela capa, eu passaria longe. Quando eu vi o livro ali no "Lendo +Próximas Leituras", eu já fiquei curioso pela resenha e nem fiz questão de procurar outras antes da sua.

    Gosto de livros que traz cenários de guerra e especialmente da 2ºGM e ainda mais se eu puder ver de vários ângulos. Toda a engenhosidade e estratégia das épocas de guerra me fascina.

    Me interessei pelo livro, porém não o leria agora porque venho lendo muitos dramas. E para ler este preciso de uma coisa "suave" antes e depois. rs

    Bela resenha! Abraços!

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    1. Lucas, o livro é bem escrito - diferente de quase tudo que se vê, graças às conversas do autor diretamente com o leitor - vale a pena ler. Eu acho a capa dele sombria, assim como a época na qual se passa. Acredito que foi esta a intenção.

      Abraços.

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  6. Acredito que a Segunda Guerra Mundial tenha esse efeito sobre nós porque, embora tenha sido declarada encerrada há 7 décadas, ela esteve ao nosso lado até pouco mais de 20 anos. E isso, em nível de história do mundo, é muito pouco. Os reflexos dessa barbárie puderam ser sentidos até 1991, com o fim da URSS, queda do Muro de Berlim, etc... Aliás, países como Coreia do Norte, Cuba, parte da Rússia, ainda vivem essa realidade, e só agora estão saindo das amarras do comunismo e tudo o que isso causou.

    Mas ainda assim, pela sua resenha, achei o livro ousado, porque esse é um assunto delicado e eu prefiro livros que o abordem de forma mais poética. Acho que uma adaptação mais visceral funcione melhor no cinema, como em Operação Valquíria. Já com livros, prefiro quando o conceito é trabalhado nas entrelinhas, apesar de ter ficado curiosa com esse livro específico. Nunca li Exodus, vou procurar também.

    Abração!

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  7. "Já que estava na chuva que dançasse como Gene Kelly."
    hahaha, adorei!
    Então, achei a sinopse um pouco confusa, mas a sua resenha meio que elucidou a ideia central. Procurarei pelo tal Exodus, me parece bastante interessante...

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  8. Os historiadores encaram como um desserviço para a humanidade os livros que fantasiam sobre a realidade dos fatos históricos, pois quem não conhece a real história pode interpretar a mesma de forma errônea. Em contrapartida, posso dizer que além dos fatos históricos, já li discursos e pensamentos de Hitler que nada se parecem com as atrocidades que aconteceram naquele tempo. Como ele conseguiu tantos discípulos? Era ele ou os próprios nazis que colocavam em prática aquilo que acreditavam? (Lembra d"O Menino do Pijama Listrado"?) Não sei se a história pode responder a tal pergunta, mas de concreto temos os resultados. A conclusão é que não são os pensamentos bons que conduzem a humanidade, mas o que fazem com eles. Esse livro vai para a minha lista de desejos. Boa semana!! Beijus,

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Oscar