25 de fevereiro de 2013

Norwegian Wood [Resenha #110]

Norwegian Wood

 

 

 

 

 

Sinopse: Publicado originalmente em 1987 e inédito no Brasil, NORWEGIAN WOOD foi o livro que alçou o japonês Haruki Murakami da condição de autor cult à de ícone cultural. Com mais de quatro milhões de cópias vendidas no Japão, é um romance de formação com toques autobiográficos, ambientado na Tóquio do final da década de 1960, que narra a iniciação amorosa do jovem estudante de teatro Toru Watanabe. Comparado a O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, por sua influência em toda uma geração de jovens leitores, o livro capta com maestria e lirismo a angústia e o desamparo da transição da adolescência à idade adulta.

Eu sempre tive problemas com romances de formação. Com “O Apanhador no Campo de Centeio”,só sobrevivi até Holden Caufield marcar com a prostituta, e se me lembro bem isto acontece lá pelo no início do livro. Mas com “Norwegian Wood” saí na frente por não saber de antemão que era disso que se tratava o livro – e aqui me felicito por não ler sinopses antecipadamente.

Segundo a Wikipédia, o romance de formação é “o tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade”. Não é tão difícil assim de se compreender: o personagem principal é apresentado, o acompanhamos em sua jornada, e, enquanto isso – e através dela – ele cresce, se desenvolve.

Em “Norwegian Wood” acompanhamos Toru Watanabe, que, ao desembarcar em um aeroporto se relembra dos tempos passados, quando passeava por Tóquio na companhia de Naoko, após ouvir a famosa música dos Beatles tocar, e se lembrar de uma antiga promessa: nunca se esquecer dela. É este o gatilho que faz desenrolar todo o restante, com ele narrando em primeira pessoa diversas passagens de sua vida.

Os principais momentos acontecem com ele morando em Tóquio enquanto cursa faculdade, e é lá que ele reencontra Naoko, garota que conhecia dos tempos de colégio, quando ela namorava o melhor amigo dele, Kizuki, que acabara cometendo suicídio.

E o suicídio é uma constante no livro, com diversos relatos sobre o tema. É incrível como a sociedade japonesa é suscetível a isso e admiro a franqueza com a qual o autor lidou com o assunto. De minha parte, é quase impossível descrever a sensação de perda e de impotência que estes momentos trazem, e os personagens acabam orbitando ao redor destes acontecimentos, e mesmo que tentem seguir em frente com suas vidas o assunto é ponto comum e sempre é trazido à tona.

Ele acaba não sendo, por fim, algo a se entender. No máximo, se busca aceitar, e se tenta seguir em frente.

O que mais me agradou em Toru foi sua despreocupação com se adaptar ao que quer a sociedade. Embora em alguns momentos ele possa parecer displicente e negligente, o fato de que não se importa com o que os outros pensem ou do que possam vir à dizer ganharam pontos comigo. Quantos de nós tem, sinceramente, este desprendimento? E somando-se a isso o fato de que ele não é um bruto insensível, e se importa muito com os sentimentos de quem lhe é próximo, minha admiração só aumenta.

Esta proximidade deste tipo de romance com a vida real me atingiu com força quando comecei a traçar paralelos. Quantas vezes tive que me despedir de pessoas que me eram caras? Com o passar do tempo, as rotas que nos ligam a elas parecem tenderem irremediavelmente a se distanciarem, e o pior é que só percebemos este fato tempos depois, à distância, quando muito pouco pode ser feito, a não ser observar.

Murakami ilustra estes acontecimentos magistralmente. Cada despedida que Toru tem de fazer foi para mim também dolorosa, e a narrativa comedida do autor – que, lembrem-se, está narrando os fatos na perspectiva de Toru – a forma sóbria como retrata mesmo aquelas mais carregadas de emoção, dão a elas um impacto ainda maior.

Igualmente, cada sentimento que ele nutre pelos outros personagens do livro são os mesmos que eu nutri como leitor. É impossível não admirar Naoko – e não torcer por ela – , não simpatizar com Reiko, uma pianista de talento que em determinado trecho do texto cruza com Toru e tem suma importância em sua trajetória, assim como Midori, o Nazista, Nagasawa e tantos outros.

Talvez por isso eu tenha um pé atrás com romances de formação: eles são muito próximos da vida que levamos.

E esta resenha tende a ser uma colcha de retalhos. Não consigo evitar.

Pouquíssimos livros me deixaram com um vazio tão grande ao terminar de ler. E não me lembro de nenhum que tenha terminado com tanto em mãos mas sem saber o que fazer disso. Acho normal que um sentimento de tristeza nos preencha quando terminamos um livro do qual gostamos, mas Norwegian Wood vai além deste sentimento, e o extrapola.

Ao terminar Norwegian Wood, segui um caminho contrário ao de Watanabe: se ele sabia o que fazer e, de alguma forma, se sentia completo, eu ainda sofria com as perdas sentidas pelo caminho.

Acredito que isso seja melancolia.

 


Norwegian Wood
, de Haruki Murakami (ノルウェイの森, Noruwei no mori , 1987Tradução de Jefferson José Teixeira, 2008) – 360 páginas, ISBN 9788560281527, Editora Alfaguara. [Comprar no Submarino]

{A+}

20 comentários:

  1. Esse é o problema dos livros nos quais acompanhamos não um capitulo da história de uma pessoa, mas praticamente o livro todo da vida dela a relação empática construída é tão forte que algumas vezes a vida da pessoa, os amores dela e tudo o mais se mistura as nossas e de repente bum somos atingidos por uma angustiante melancolia ao fim do texto.

    E o que dizer da sua resenha, que mais parece uma cronica literária, e que colocou Haruki Murakami no meu mapa literário? A colcha de retalhos ficou linda!

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    1. Exato, não é tão simples acompanhar um personagem por muito tempo, e em livros como "Norwegian Wood", é impossível se dissociar da experiência que ele trás. Murakami foi pra mim uma bela surpresa, quero muito continuar lendoó.

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  2. Eu gosto TANTO das suas resenhas de livros bons! Elas fogem do controle, né?

    =D

    Acho que "O apanhador" é melhor pra ser lido adolescente mesmo... acho que adolescentes tem mais interesse na história de uma adolescente... não sei. Eu li naquela época e não reli mais, pra mim é um dos melhores livros da minha vida. Mas já vi muita gente falando que achou chato, sem graça, não conseguiu continuar a ler...

    Gosto muito do estilo, procuro ler tudo! Esse vai pra lista. Só tenho que lembrar que é triste pra ler no momento certo...

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    1. Sharon, eu não tive muita sorte com o "Apanhador", mas quero tentar novamente um dia. Já MUrakami vale muito a pena, acredito que você gostará - mas ele é bem triste (ao menos o achei) em alguns momentos.

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  3. Oi Luciano!
    Faz tempo que quer ler O apanhador no campo de centeio, mas sei lá por que, nunca pego ele pra ler.
    Não sabia o que era "romance de formação", gostei da explicação.
    O livro parece ser interessante, mas não é o tipo de eu pegaria livremente para ler. Quem sabe um dia dou uma chance a ele?

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  4. Luciano,

    A primeira vez que ouvi falar em Mukarami foi através das referências feitas a 1Q84. Então passei a procurar outras obras do autor e Norwegian Wood apareceu entre minhas pesquisas. Agora após ler a resenha tenho que admitir que fiquei ainda mais curioso. Romances de formação até esse ano não constavam na minha lista de leitura, mas após ler Capitães da Areia, do Jorge Amado, esse tipo de leitura passou a figurar com mais destaque para um futuro não tão distante.

    Abraços
    Juan - sempre-lendo.blogspot.com.br/

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  5. Ola Luciano tudo bem?
    Que resenha! Eu gosto de romances de formação justamente por esse quê de realidade. Não conhecia esse especificamente mas depois de sua resenha me bateu uma curiosidade enorme e uma vontade de conhecer cada um desses personagens. Esse já esta na lista.
    Abraços,
    Amanda Almeida
    Você é o que lê

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  6. Eu AMEI O Apanhador no Campo de Centeio, e lamento que você não tenha evoluído na leitura. Dê uma outra chance a Salinger no futuro! Hehehehe

    Bom, esse livro já entrou na minha lista de desejados, sem dúvida. Amo a temática, amo Beatles, amo o sentimento de melancolia que um livro pode proporcionar... já disse que amo Beatles? Hahaha

    Abraços!

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  7. Não o conhecia...
    Não é bem o meu tipo de livro.
    Acho que eu leria, leria e não sairia do lugar.
    bjs
    modaeeu.blogspot.com

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  8. Não conhecia este livro. Achei o interessante. Mas acho que por fim não leria, tenho um pé atrás com romances de formação, mesmo que sua resenha esteja super positiva, eu passo esse livro.

    Abraços!

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  9. Tem uma promo no ar lá no blog! Participa? :)
    Beijos,
    Vinícius - Livros & Rabiscos

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  10. Oii, te indiquei para um selinho pega la: http://mmanythings.blogspot.com.br/2013/02/selo-premio-dardos.html

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  11. Haruki Mukarami é um nome que me chama a atenção já há um tempo: quando li Cloud Atlas, a sinopse enfatizava uma semelhança entre os dois. Pretendo me iniciar com 1Q84, mas esse tá na lista também.
    Até porque eu amo romances de formação. Amo mesmo, talvez seja um dos meus gêneros favoritos. Me dá uma esperança tão grande ver o quanto as pessoas podem melhorar, sabe? Quando isso é expresso por palavras bem escritas, melhor ainda.

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  12. Eu preciso ler O Apanhador no Campo de Centeio, eu nunca li um livro nesse estilo e gostaria de começar com este. A sua resenha me deixou um pouco confusa, mas eu gostei.

    Beijos. Tudo Tem Refrão

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  13. Gostei da resenha, mas o livro não me chama muito atenção =/

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  14. Gostei da resenha, adoraria ler o livro para teruma opinião mais formada sobre o livro.
    Bjs

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  15. Romances de formação infelizmente não são a minha cara, prefiro histórias com suspense e reviravoltas.

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  16. Não me lembro de ter lido autobiografias misturadas com romance, mas essa realmente chamou minha atenção! Pena que parece ser meio previsível... Mas eu espero gostar!
    https://411dreams.blogspot.com/

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  17. Nunca li livro japonês. Adorei.

    Jessica Neves

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  18. Minha irmã leu o Sputnika do mesmo autor e disse que é bom!

    Amanda Ribeiro

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