17 de maio de 2013

Tudo o que Mãe diz é Sagrado [Resenha #127]

Tudo o que mãe diz é sagrado

 

 

 

 

Sinopse: O que pode restar de uma pessoa que doa parte de seu corpo para salvar a mãe que morre em seguida? O que se passa nas entranhas de alguém que sente a vida de forma intensa é o que se lê em Tudo o que mãe diz é sagrado. As amarguras da vida deixam feridas profundas às vezes, e conviver com uma dor que parece infinita é só o que se pode fazer. A autora passou por um longo período de luto e foi por meio da escrita e da companhia de seu fiel cachorro, Astor, que ela - aos poucos - voltou a viver. Paula Corrêa é visceral, densa e doce ao mesmo tempo. Este livro leva a uma viagem vertiginosa, mas bela! Vertiginosa e bela como a própria vida.

Eu tive uma relação difícil com o “Tudo o que mãe diz é Sagrado”, da autora Paula Corrêa, principalmente no início da leitura.  Na verdade eu demorei umas boas quarenta páginas para entender o que o livro dizia, então até ter esta “epifania” orbitei meio perdido ao redor do que lia, sem ter a mínima ideia de onde aquilo iria me levar. Somadas as páginas, essa confusão até que me ajudou.

O livro é baseado em uma fase bastante espinhosa da vida da autora: a morte da mãe, após um processo doloroso de enfermidade que culminou em um transplante – onde a autora foi a doadora. Demorei entender que se tratava de um livro de memórias, e somente após saber isso a leitura ficou nos trilhos.

E livros de não-ficção me assustam. Sempre que possível fujo deles, apesar de minha última experiência no gênero ter sido bastante agradável, com a Katherine Boo e seu “Em Busca de um Final Feliz”, mas eu continuo me sentindo bem mais confortável no reino do inventado, lugar que, mesmo quando reflete a nossa realidade, tem a vantagem de soar como fantasia e nos permitir desconectar.

No livro a autora conta como reagiu à morte da mãe após o transplante que não fora bem sucedido, e o texto é uma torrente de pensamentos e afirmações num primeiro momento desconexas e sem muito sentido que me deixaram desnorteados. Porém, quando me situei a coisa mudou de figura, e entendi bem o que a autora dizia, e pude enxergar claramente a beleza do texto.

Se é um pouco confuso no início é, também, por assim se sentir a narradora na ocasião. Saber que a mãe morrera com uma parte sua – que a deveria ter salvo – acrescenta muitos elementos nos quais se pensar a esta confusão, e ela não sabe se se sente também um pouco morta, ou se, na verdade, este pouco é muito; e o que ela fará dali pra frente, para seguir seus dias como fazia antes.

Minha leitura do livro coincidiu com uma data importante para minha família, a da perda de alguém querido, então não pude fazer outra coisa que não traçar paralelos entre o que lia e o que vivi. É um jogo perigoso, mas me ajudou a compreender o sentimento que a autora colocava no papel e o que ela queria dizer. Você se sente perdido quando algo assim acontece com alguém próximo e a realidade, querendo ou não, fica meio alterada, como se ficássemos hipersensíveis a tudo o que nos rodeia, e sentíssemos as coisas/fatos/formas de maneira diferente. Claro que cada pessoa reage de um jeito, mas, no fim, todo fim é comum.

O livro não possui uma leitura fácil, mas mesmo assim, recomendo sua leitura. O façam no seu ritmo, sem se apressar ou cobrar nada. Apesar de parecer uma confissão feita aos jorros, não é difícil perceber o padrão narrativo da autora, que é bonito, cadenciado, com algumas tiradas e percepções bastante válidas.

Ele me tocou de uma forma especial, gostei de como foi me ganhando aos poucos. Reconheci algumas passagens, como a do questionamento divino, onde todos os porquês vêm a tona mesmo que saibamos que permanecerão sem resposta; e o universo paralelo que parece surgir após estes acontecimentos. As coisas ficam tão estranhas que não parecem as mesmas – e não são – as memórias parecem ter séculos, e algumas até mesmo soam inventadas.

O livro vale ser lido pela experiência, nenhum leitor sairá dela incólume. Mesmo densa, a prosa da autora merece ser visitada.

 

Tudo o que Mãe Diz é Sagrado, de Paula Corrêa (2013).  168 páginas, ISBN 9788580447361  Editora LeYa.

{B+}

13 comentários:

  1. "Livros de não-ficção me assustam". Nossa, Luciano, acho que nunca me identifiquei tanto assim com uma frase.
    Antes de tudo, peço um milhão e meio de desculpas por ter sumido. Já expliquei o motivo no blog, e me senti menos sozinha quando você disse que já teve crises de ansiedade. Não sei se você já chegou a tomar remédio pra isso, mas só digo que a sertralina simplesmente de DERRUBA. Eu tento não "pisicosomatizar" tudo, mas é complicado =/
    Enfim, como eu dizia, e te parafraseando, os livros não-ficção (principalmente quando não são apenas estudos, mas histórias reais) são simplesmente tenebrosos. Histórias trágicas fazem sucesso (não sei se felizmente ou infelizmente) e eu acredito que todos tem uma tragédia particular de vida. Esse livro, por exemplo, fala sobre a perda da mãe da protagonista. Minha mãe morreu quando eu era criança, de câncer. O tumor foi descoberto tarde (mesmo ela nem tendo 40 anos ainda) e não havia muito a ser feito. Minha mãe morreu há 9 anos e seis meses atrás. Eu ainda sinto a falta dela, é claro. Mas eu tinha apenas seis anos naquela época. Mesmo assim, isso não me impediu de passar uns seis dias das mães de cara feia com o mundo, conspirando pelo fato de que todas as crianças tinham mãe e eu, não. Mas agora eu tenho uma madrasta e gosto muito dela (acho que ela é minha madrasta há uns sete anos, mas não tenho certeza). Madrastas não tampam o buraco das mães, mas eu a trato como mãe, e fico feliz por ter ela como substituta.
    O fato é que eu não consigo ler este tipo de livro. Não sei por que, mas me sinto mal. Eu já não-ficções de vários gêneros, mas não consigo passar perto de livros que falam sobre a perda de uma mãe. Para mim é quase um tabu, eu simplesmente não consigo. Então, mesmo que eu entenda esse turbilhão de emoções que você citou, eu não quero encará-las de novo. E isso é muito covarde da minha parte.
    Ainda sim, gostei da sua resenha. Não tenho dúvidas de que o livro é bom, mas eu não o leria. Simplesmente não conseguiria D=
    A propósito, sinto muito pela sua perda. Dizer que as coisas sempre melhoram é hipocrisia demais para mim, então apenas espero que você não se esqueça dessa pessoa, seja lá quem for, e não deixe de lembrar dos bons momentos. Afinal, depois de tudo, os bons momentos são tudo o que nos restam. Aposto que era alguém muito especial.

    Beijos!
    www.nathlambert.blogspot.com

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    1. Nath, não precisa se desculpar, e não acho que seja uma atitude covarde, acho que cada um de nós sabe com o que é confortável lidar e, confesso, se soubesse do que trata o livro desde o início talvez tivesse deixado para lê-lo depois, quando não estivesse tão perto de quando se completou cinco anos do falecimento do meu pai. Esses eventos mexem mesmo com a gente, e cada um reage de uma forma.

      Aqui em casa todo mundo já tomou algum medicamento pra ajudar na ansiedade, toc, insônia, depressão e afins. É uma constante familiar. Tomei bem pouco tempo, na adolescência, meus irmãos tomaram bem mais - ainda tomam - inclusive o caçula também toma sertralina, mas com a "grife" Serenata, então ele mesmo diz, quando vai tomar o remédio, que vai fazer uma serenata, trocadilho barato, eu sei.

      Grande abraço, muito obrigado pelo comentário, espero que as coisas fiquem bem.

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  2. Quando a resenha ficar assim, sensível como uma pétala de flor, fica até difícil comentar... Eu tenho um fraco por autores psicológicos e pela forma como eles abordam a vida não através dos acontecimentos, mas de como as pessoas percebem os acontecimentos... geralmente eles conseguem ser densos, líricos e as vezes perversos na forma como arrancam de nós a consciência de algumas dores tão bem guardadas no fundo do fundo do inconsciente.

    São os que mais me deixam com ressaca, mas até do que aqueles que me arrancam um rio de lágrimas sentidas... Mas costumam valer muito a pena.

    Parabéns por ter conseguido escrever sobre o livro, eu não teria conseguido.

    Cheros Luciano, bom fim de semana!!! Se cuide!!!

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    1. Também gosto de autores psicológicos, mas este me pegou de surpresa, não esperava que fosse tão denso. No fim, valeu a pena, mesmo tendo de rememorar muitas coisas. Você foi certeira, estes autores nos arrancam mais do que estamos, à princípio, dispostos à entregar.

      Dois abraços ;) e muito obrigado:D

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  3. Já estou te seguindo
    seu blog é maravilhoso, convido você e suas leitoras a conhecer meu blog
    http://toobege.blogspot.com.br/
    beijinhos

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  4. Também fico levemente assustada com livros de não ficção, mas talvez pelo meu hábito de tratar a ficção como realidade, o impacto não é tão grande assim. O maior trunfo da leitura é nos colocar no lugar de outra pessoa (gerando assim mais empatia com um semelhante que parece, na verdade, bem diferente a priori) e na não ficção isso é mais forte.
    Enfim, juro que tentei escrever uma lista de melhores mães da ficção em homenagem ao último domingo, mas não consegui - é um tema emocional demais para se tratar sem clichês. Ao que me parece pela sua resenha, deve ser um dos maiores trunfos do livro...

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    1. Isabel o livro é bastante forte e não há como potencializar isso se o leitor já passou por situação semelhante à da autora. Mas vale a pena ler, acredito que se ganha muito com o estilo utilizado por ela.

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  5. Oi Luciano!
    Esse livro me parece tão complicado. Prefiro deixá-lo para um momento em que eu esteja preparada para lê-lo, porque, como você disse que o começo é meio complicadinho, confuso demais, provavelmente eu deixaria esse livro de lado ou então o odiaria profundamente.
    Não é que eu fique assustada ou não goste de não-ficção, mas existem momentos. Quando eu sinto aquela brechinha se abrindo, já aproveito. E a uma chuva torrencial de emoções recai sobre mim quando isso acontece, ou seja, preciso estar preparada para não "desmoronar" junto com o livro.
    Quem sabe mais pra frente.

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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    1. Luara, o começo é complicado, eu fiquei meio perdido. Porém, quando me encontrei, as coisas não se tornaram mais leves, pelo contrário, continuaram densas. Pra quem gosta é um prato cheio.

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  6. Quando vi esse livro pela primeira vez, passei longe. Esse tipo de abordagem mexe muito comigo e eu levo muito para o pessoal - passei por situação semelhante - então nem pretendo lê-lo. Acho meio sádico eu me envolver com livros que sei que me deixariam triste por livre e espontânea vontade, então esse título eu passo.

    Abração!

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Oscar