8 de julho de 2013

A Ideia, de Lucas Chagas [Resenha #135]

A IdeiaSinopse: Um homem, no limite do sofrimento, decide compartilhar sua jornada e escreve a mais sincera declaração de amor. Dessa forma, ele leva até você, leitor, a trajetória vívida de uma paixão que, sem imaginar, mudaria sua forma de ver a vida. Beatrice Dumont, 23 anos, estava habituada à mesmice da sua vida, mas percebe, durante uma noite de forte chuva, que aproveitava pouco sua juventude. E tudo parece piorar quando ela se apaixona por Benjamim. Porém, ela nem imagina o que a espera... Sem achar uma luz no fim do túnel, sente a necessidade de dar um passo em direção à mudança de vida. Mas o que ela parecia ter esquecido é que a felicidade, muitas vezes, pode trazer consigo perdas irreparáveis, principalmente quando os laços afetivos com as pessoas que amamos são muito fortes. A Ideia não é uma história de um amor perfeito, no qual o universo conspira a favor. É uma história de luta pelo amor, quando tudo parece estar contra. Fala da vida em sua brevidade, sem deixar de lado os instantes que fazem dela algo eterno.

Eu tenho uma dívida com os autores nacionais que já me parece impossível de ser paga. Pois, é, sou como o Brasil com a dívida externa, então a partir de agora me darei por satisfeito com quando conseguir pagar os juros desta dívida. Assim, se conseguir, até o final do ano, ler um livro nacional a cada três estrangeiros me darei por satisfeito.

E se tem um aspecto no qual sou especialmente falho é no que diz respeito aos novos autores. Por mais  que, com a publicação por encomenda, o acesso deles ao público tenha sido facilitado, experiências anteriores me deixaram com o pé atrás, pois o que sobrava em criatividade do autor faltava em cuidado editorial da editora. Então não foi sem um pouco de desconfiança que comecei a leitura de “A Ideia”, livro de estreia do autor Lucas Chagas, mas posso dizer que me surpreendi.

No livro, conhecemos Bia, uma estudante do curso de letras, que sempre morou com a tia, por quem, apesar de não terem um laço tão estreito, em certas partes do texto demonstra grande afeição e preocupação.  

Bia leva uma vida sossegada que é longe de ser interessante: estudiosa, quando não está trabalhando está estudando ou dormindo, com ocasionais escapadas parta algum programa com os amigos. Apesar de cheia de sonhos, a imagem que ela faz da própria vida, vazia, sem significado, é de um pessimismo que contagia e atrapalha um pouco o andamento da leitura.

Ela tem uma certa tendência para a divagação, e seus pensamentos são concatenados de uma forma que não parece muito lógica, mesclando o que se passa no momento com longas  divagações e flashbacks, o que contribuiu para que eu me perdesse inúmeras vezes. Este  é um problema  significativo: quando o personagem não consegue ser claro, e o livro é narrado em primeira pessoa, a identificação do leitor com ele fica comprometida. Foi o que aconteceu comigo, e  em narrativas que tem como foco a pessoa e seu cotidiano, fica difícil quando isso acontece.

Para completar, ela me pareceu contraditória em diversos pontos, se apoiando em achismos que ela mesma fazia questão de colocar por terra algumas páginas depois.A impressão que fica – e acredito que este é o tom do livro durante boa parte da narrativa, que ela se esforça muito para procurar defeitos em si e em sua vida e para justificá-los, mesmo que o leitor não consiga enxergá-los desta maneira.

Reconheço que ela melhora bastante quando se abre para o amor, mas tanta coisa já havia sido perdida por falta de empatia entre nós que muito do livro acabou me escorrendo por entre os dedos. E o interessante é que este é o tipo de livro com o qual costumeiramente me dou bem: aqueles que narram o cotidiano de um personagem, nos apresentando sua visão do mundo à sua volta. Assim, não posso deixar de pensar que parte da falha tenha partido de mim como leitor, pois, tirando meu estranhamento com a Bia personagem, se pode perceber certa ousadia no texto do autor, que não teve medo de se expor à situações mais complicadas simplesmente para que o texto fosse melhor digerido.

O livro faz parte do selo “Novos Talentos da Literatura Brasileira”, da Editora Novo Século, e não encontrei problemas com revisão. Recomendaria o livro para quem está disposto a enfrentar uma leitura íntima, introspectiva. Quem tem afinidade com narrativas carregadas de sentimento tem uma boa chance de se dar bem com “A Ideia”. Aos com facilidade de se distanciar do texto, como eu, as coisas podem não ser tão simples.

 

A Ideia, de Lucas Chagas (2012).  424 páginas, ISBN 9788576797661  Editora Novo Século

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9 comentários:

  1. Um nacional e três estrangeiros? Assim a dívida só vai aumentar... Hehe.. Eu leio 1x1.. Ou, no máximo 1x2...

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  2. Vou ser muito honesta: acho que esse negócio de TER que ler autores nacionais e novos autores é balela. Tipo, entre ler um livro nacional mais ou menos e um estrangeiro bom, so sorry, eu vou ler um livro bom.

    A questão é que valorizar a literatura nacional é diferente de consumir qualquer coisa apenas para divulgação, porque valorizar é realmente dar destaque ao que é realmente bom e merece ser enfatizado.

    Desculpem-me, mas eu não tenho obrigação nenhuma de ler literatura nacional apenas pela amizade, eu leio o que merece ser lido, na minha opinião. Custa pesquisar novos autores? Não, mas eu cansei de autor nacional pedindo para ser café com leite, principalmente quando nós blogueiros vamos fazer uma resenha.

    Escreva um livro bom, ele será lido. Não sei como pode ser mais fácil que isso.

    Abraços! =)

    P.S.: Desculpa, sou meio sangue nos zóio hahaha.

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    1. Opa! Sabe que eu ainda não tinha dissociado o "ler autores nacionais" com o "não ter de ler o que é ruim"? Talvez por eu ter em mente alguns autores que, assim me dizem as pessoas que os me indicaram, são muito bons, então veremos. Mas, sim, assino embaixo, tem coisa que não vale a pena ler apenas por ler.....

      Dois abraços ;)

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    2. Concordo ma muuuito e a mesma coisa com filmes...

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  3. Só que não é assim que funciona.
    Na verdade, a maioria lê o que a maioria lê, esquecendo completamente da qualidade. São poucos os que levam a qualidade do livro em conta na hora de procurar uma leitura. Querem os mais famosos e/ou mais baratos.

    E porque eu leio mais escritores nacionais? Primeiro: as traduções não costumam ter qualidade; segundo, a língua portuguesa é uma das mais ricas. Agora, tudo é questão de gosto e costume. Estou relendo "Grande Sertão: Veredas", um livro que poderia ser escolhido o melhor do século passado se Guimarães Rosa tivesse nascido americano ou inglês.

    --
    Luciano, achei "Por Este Mundo Acima", da Patrícia Reis, o melhor até agora da coleção Novíssimos... Nota dez! Entrou na minha lista de favoritos, que aliás não tem vinte livros...

    :D

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    1. Acho que cada um lê o que quer e tem pra si o que é bom, o resto é perfumaria.

      Eu me dou bem com autores internacionais - temos tradutores excelentes, Drummond traduziu, Lya Luft também, assim como Lobato, sem falar no Boris Schnaiderman que deixa os russos tão próximos de nós. E também com os nacionais, cada caso tem que ser visto em separado e qualquer generalização tende ao erro - o que, por fim, se aplica a quase tudo na vida. Adoro Domingos Pellegrini, José Lins do Rego, Fernando Sabino. Não dei sorte com Machado de Assis. É assim a vida.

      Os mais vendidos são mais vendidos por serem "digeríveis" e quem busca refúgio na literatura anseia, de início, entretenimento, por isso eles são mais lidos, mas, nem sempre melhores.

      Existem um milhão de livros que gostaria de ter escrito, responder qual meu favorito é sempre uma batalha a ser travada. Isso não faz de mim um leitor pior, ou melhor. Ou sim. Ou não.

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    2. Flávio, concordei com você em número, gênero e grau. No meu caso sou mega fã de Machado de Assis, se fosse inglês seria considerado, tal como é, um dos maiores autores do século XIX, teria mil seriados e filmes de altíssima qualidade sobre cada um dos livros dele e não haveria quem torcesse o nariz só porque a tia de português do ensino médio fez o absurdo de obrigar o adolescente a ler Dom Casmurro.

      Enfim, só há uma forma de saber se o livro presta: lendo ele!

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  4. Luciano eu jurava que tinha comentado essa resenha!!! Abri para conferir se você tinha respondido e ai vejo que nada comentei ou será que meu comentário não ou eu sonhei que tava comentando e achei que tinha feito mesmo??!?! #DúvidaCruel

    Enfim, confissões de loucuras a parte, eu também gosto de incluir entre minhas leituras autores nacionais e entre eles autores de minha terra. Gosto de me ver e me identificar nas histórias, de identificar características do meu "povo" e derivativos. Amadureci como leitora lendo José de Alencar e Machado de Assis e prezo por ler nacionais senão os do século XXI ao menos os do XX e XIX.

    A proposito, sobre literatura nacional uma coisa que me irrita é perceber o quanto é fácil e o quão frequentemente lemos textos americano e irlandeses com toda a facilidade do mundo que não são essa coca toda, de autores iniciantes cuja evolução inclusive acompanhamos lançamento a lançamento e o mesmo não ocorre com os autores brasileiros.

    Quer dizer, basta um comentário negativo ou positivo de um critico do The New York Times que a gente nunca viu tão gordo/magro/preto/branco e não sabe o limite de sua franqueza ou o quando ele recebeu para isso do que muitos se sintam confortáveis para perder o amor de R$ 30,00 para ler qualquer livro ou até mesmo falar sobre eles.

    Quem de nós não gastou tinta, olhos e boa vontade lendo a porcaria do 50 tons????

    Bem, há muitos autores brasileiros imaturos.... mas dãh há autores imaturos em todos os países do mundo e épocas nem Machado de Assis nasceu Machado de Assis.... Gostei da proposta do "A Ideia" entrou para a minha lista.

    Isso não foi um comentário, foi um post, desculpe.... juro que no outro comentário que fiz provavelmente em sonho tinha sido mais concisa...

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  5. *Por minha terra entenda-se: Nordeste

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Oscar