23 de setembro de 2013

Corações Feridos, de Louisa Reid [Resenha #144]

Corações Feridos

 

Sinopse: Hephzibah e Rebecca são irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Enquanto Hephzi é linda e voluntariosa, Reb sofre da Síndrome de Treacher Collins — que deformou enormemente seu rosto — e é mais cuidadosa. Apesar de suas diferenças, as garotas são como quaisquer irmãs: implicam uma com a outra, mas se amam e se defendem. E também guardam um segredo terrível como só irmãos conseguem guardar. Um segredo que esconde o que acontece quando seu pai, um religioso fanático, tranca a porta de casa. No entanto, quando a ousada Hephzibah começa a vislumbrar a possibilidade de escapar da opressão em que vive, os segredos que rondam sua família cobram-lhe um preço alto: seu trágico fim. E só Rebecca, que esteve o tempo todo ao lado da irmã, sabe a verdadeira causa de sua morte... Hephzi sonhara escapar, mas falhara. Será que Rebecca poderia encontrar, finalmente, a liberdade?

Eu esperava muito pouco de “Corações Feridos”, mas no fim o livro me entregou muito, e me surpreendeu por sua densidade. Quão bom é quando isso acontece? Trazendo a trágica história da vida de duas irmãs gêmeas, Rebbeca e Hephzibah – se achou  o nome estranho é porque não conhece a família, e por mais inusitado que seja, seu significado casa bem com o que se verá no livro – filhas de um pastor que vivem na Inglaterra e tem uma rotina familiar envolta em mistérios e segredos.

Não bastasse o clima opressor que a criação de filhos de religiosos pressupõe – mas não é regra, entendam que não é o que quero dizer, estou mais apontando um senso comum que afirmando uma opinião pessoal – uma das gêmeas, Rebecca, é portadora da Síndrome de Treacher Collins, e assim como o personagem de “Extraordinário”, tem uma severa deformidade facial.

Pegue um homem que tem uma fé extremada e você não vai demorar muito para perceber que ele vê o pecado em tudo, assim como tudo que de mal possa acontecer com o pecador se torna prova incontestável da ira divina. Uma filha com uma doença que atinge tão severamente a imagem da pessoa, causando um desenvolvimento disforme da sua face – mas não de seu intelecto – é perfeita para que este homem veja esta filha como algo pecaminoso, monstruoso e outros adjetivos nada honrosos.

Dentre muitos dos desejos do pai abusivo e autoritário aos quais as irmãs têm de se submeter, estão o mínimo contato com o mundo exterior que não aqueles necessários para os serviços da igreja, os serviços domésticos e limpeza da congregação, a estrita observação dos preceitos religiosos – como por exemplo não tomar banho quente (vai que se desperta a luxúria!) – e a opção pela educação domiciliar. Além de, claro, sorrirem quando for necessário, e esconderem Rebecca, a gêmea com a síndrome, ou ao menos tirarem-na dos “holofotes” para que se pareçam com uma família feliz, santa, perfeita.

Sendo criadas apartadas do mundo, e tendo seus conhecimentos limitados dentro daquilo que seu pai – com a conivência da sempre apática mãe – acha religiosamente apropriado saberem, as gêmeas não tem muita ciência de como o mundo funciona, e se perdem mesmo em questões banais como de onde veem os bebês – perguntem à sua mãe fanática religiosa e ganhem uma boa lavada de sabão na boca – como se comportar perante um garoto, e etc. E, claro, não têm acesso a livros, revistas, internet, enfim, nenhuma fonte externa de consulta, ficando à mercê daquilo que os pais acham necessário que saibam.

Mas as irmãs crescem. Enquanto Rebecca é tímida, calada e mais resignada quanto ao seu destino – ao menos é o que deixa transparecer no início – Hephzibah é uma força, linda, cheia de curvas, com os hormônios em ebulição e uma vontade louca de enxergar além do jardim de sua casa. Com muito custo conseguem que seu pai permita que cursem o ensino médio numa escola comum.

Aqui é o começo do livro. Logo de cara sabemos que Hephzibah está morta, e, agora, Rebecca está sozinha, tendo de enfrentar toda a escuridão que paira em sua casa. A grande sacada do livro, em sua primeira parte, é a divisão da narrativa entre as perspectivas de Rebecca, nos contando o período pós-morte de Hephzibah; e de sua irmã, Hephzibah, nos contando o período anterior, os acontecimentos que culminaram com sua morte. Deste modo, sabemos em capítulos alternados, o que aconteceu com Hephzibah e como Rebecca está lidando com aquilo, e, apesar de isso ser feito de uma forma cronológica não muito convencional, sua estrutura foi levada à termo de maneira muito competente pela autora, e funciona sem deixar cacos.

E o interessante é perceber as vozes que nos narram os acontecimentos: Hephzibah é bonita, quer ter uma vida normal, ser feliz, e, principalmente, encontrar um meio de sair de sua casa e se livrar de seus pais, mesmo que para isso tenha de deixar Rebecca de lado, pois se sua entrada no colégio é a chance que ela tem de se destacar e conseguir o que quer, ser associada à irmã estranha, com sérios problemas de formação da face pode ser um grande empecilho. Num primeiro momento torci a cara devido às suas ações, mas, por um segundo, me coloquei em seu lugar: será que posso julgá-la por querer de todas as maneiras fugir de um lar que mais se parece com uma prisão, fazendo tudo o que for preciso ser feito para tanto? Não, não posso condená-la, e, principalmente, pelos momentos em que se preocupa com Rebecca, e sonha ser possível, quando ela conseguir fugir, também resgatá-la.

Já Rebecca é uma personagem mais complexa, que tem uma carga maior para carregar: ela sabe que incomoda, que sua aparência é desagradável, e que nada pode fazer para mudar isso – seus pais não tem boas relações com médicos (como todo agressor) então nunca procuraram para ela tratamentos que podem melhorar a qualidade de vida dos portadores da síndrome. Uma vez mais, me coloquei no lugar da personagem, e, desta vez, tive ciência da minha pequenez. Apesar de parecer frágil, Rebecca é de uma força quase inacreditável, com um caráter que se sobrepõe de tal maneira que é impossível não criar com ela uma ligação de afeto que passa longe do “coitadinha! ela é deficiente!”, mas, sim, reconhece seus esforços, mesmo os mais simplórios e ingênuos, e por isto também parabenizo a autora. – gostaria de explicar melhor, mas não dá para fazê-lo sem entregar o livro.

Gostei da cascata que a autora construiu para nela estruturar seu texto. As revelações, os desdobramentos, tudo vai surgindo de forma crescente e prende o leitor a cada página. Se a gente entende logo que há algo errado no pai pastor meio louco, não somos capazes de imaginar até que ponto vão seus abusos. Mais um ponto pra autora. Com sua narrativa, ela nos faz sofrer com as irmãs, nos sentimos isolados com elas; a solidão, o medo o desespero, o clima denso de catástrofe que sempre ronda as duas, tudo é palpável e nos atinge.

É um livro certeiro, bem pensado, e executado. Gostaria de ser surpreendido assim mais vezes.

 

Corações Feridos, de Louisa Reid (Black Heart Blue, 2012Tradução de Thiago Mlaker, 2013) – 256 páginas, ISBN 9788581630441, Editora Novo Conceito.

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44 comentários:

  1. De alguma forma - talvez errônea mas sei lá - a sinopse me lembrou o filme A Vila, que inclusive não me agradou em nada. O argumento eu acho ótimo, principalmente no tocante à privações por causa da religião. Mas, talvez por medo, receito, não sei, as histórias se percam no final, como senti que aconteceu com A Menina que Fazia Nevar. Eu arriscaria o livro, mas com um pé atrás por causa desses precedentes. Ótima resenha!

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    1. "A Vila" é um filme que sempre quis assistir mas que acabou passado, foi bom lembrar dele! A religião aqui é um importante pano de fundo, mas não se fala tanto nela, é algo intrínseco devido à figura do pai. Foi uma boa leitura ;) vale a pena ler.

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  2. Uau!!!! Acho que esse livro entrou na lista dos "que eu preciso ler"!!! Também não dava nada por ele e agora... só pelos nomes das meninas já fico ansiosa por te-lo nas mãos e se o autor escolheu os nomes propositalmente não podia esperar da Rebeca menos que uma força sem precedentes - sou fã da Rebeca bíblica...

    E sim, só a resenha já me arrepiou e deu aquele aperto no peito de medo de dor e lembranças... Hephzibah me lembrou uma amiga muito amada, uma das que mais tenho saudade e espero por encontrar na Eternidade... Sinto que esse livro talvez algo que toda menina que cresceu sufocada precise ler...

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    1. Pois é, eu me surpreendi bastante com ele ;) acho que é normal traçar esses paralelos, livros assim nos tocam de diversas maneiras, e é bom relembrar, mesmo que co uma pontada no peito...

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  3. Olá, beleza?
    Me convenceu a ler! Vou tentar fazer ele furar a fila de livros que tenho que ler... Gosto muito de livros nesse estilo - mesmo não lendo tantos. e.e
    Ah, te marquei numa tag, não sei se você realiza tags aqui no blog, desde que me inscrevi no blog não vi nenhuma. Mas ok, o que vale é a iniciativa, né?
    http://silborgue.blogspot.com.br/2013/09/tag-5-livros-que-eu-gostaria-de-viver.html
    Obrigado. :D

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    1. Guilherme, este vale a pena colocar na frente de outras leituras, é um livro muito bom ;)

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  4. Este livro me pareceu bom quando li a sinopse, mas estou com uma impressão ainda melhor depois de ler a resenha.
    Acho que a história conta com uma trama realmente densa, cheia de "conceitos" e carga emocional. Independente de qualquer opinião quanto a questão da religião estremada, acho que é prato cheio para a tensão. E os mistérios e revelações tornam tudo ainda mais interessante.
    bjs

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    1. Ana Paula, o livro é bastante denso, tem uma atmosfera espessa, de mistério e sofrimento que mantém a narrativa interessante a todo momeento.

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  5. Uma história linda e envolvente. Estou simplesmente encantada e ansiosa pra ler este romance. Obrigada por me fazer conhecer a história e esses personagens tão incríveis. Beijos.

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  6. Eu gostei tanto, TANTO da sinopse desse livro...
    A capa dele também é instigante, logo de cara fiquei curiosa sobre a história.
    Adoro quando o livro provoca uma reação completamente diferente daquela que o leitor imaginava, rs, isso acontece ciom grande parte dos livros que eu leio e esse entrou na minha listinha de desejados/cobiçados;

    Adorei a resenha. Está super bem escrita e sem spoilers.
    A estruturação dela ficou muito boa e só aumenta a curiosidade;.

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    1. Daniela, eu confesso que a primeira coisa que me atraiu nele foi a capa, ela é instigante mesmo. Pra nossa sorte o conteúdo é ainda melhor.

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  7. História de gêmeas e trgédias me lembrou Lua de Sangue, da Nora Roberts, mas pelo que vi, pode ser ainda mais denso do que este que li tempos atrás.
    Gosto de livros assim, que a gente não espera tanto mas que no final das contas, putz, te ganha completamente.

    Vou colocá-lo na lista. :D

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    1. Ana Flávia, não conhecia o "Lua de Sangue", vou procurar saber mais sobre ele. E, concordo, livros que nos surpreendem positivamente são os melhores.

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  8. Assim que li a sinopse já fiquei curiosa com essa trama.
    Curtir a premissa, gosto quando os autores nos ofertam tramas diferentes do que já estamos saturados...

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    1. Gladys, esse é um livro que foge à regra, então tem tudo para gostar ;)

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  9. CARAMBA!!!
    Eu preciso ler, simplesmente!

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  10. Eu me encantei pelo livro assim que li a sinopse "rolando" na internet. E agora, só tenho lido resenhas que falam maravilhas do livro. Com certeza entrou para minha wishlist!

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    1. Fabíola, esse é um livro que chama a atenção mesmo, o melhor de tudo é que a autora ainda nos entrega uma obra muito boa ;)

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  11. Esse livro trabalha as relações humanas, que são tão dificeis qd não há grandes problemas imagina com uma menina com uma deformação e um fanático religioso no mesmo barco? Curiosa p/ ver no que essa mistura deu!

    Miquilissss: Bruna Costenaro

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    1. Bruna, exato! O ato de nos colocarmos no lugar gera uma empatia única, que faz muito bem ao texto!

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  12. E mais uma vez é preciso dizer: não se deve julgar o livro pela capa!!! Olhando a capa não me atraiu em nada, mas depois da sua resenha cheguei a conclusão que é uma boa pedida!!!

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  13. Até onde pode ir a loucura de um homem que se diz temente a Deus? Fiquei horrorizada com tudo que voce contou na resenha, mas bem sabemos o quão é perturbada a mente de pessoas que fazem da religião o centro da vida e da vida de quem os cercam, imaginei a vida das duas garotas. o inferno que viviam! Fiquei muito interessada na historia, parabéns pela bela resenha! :)

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    1. Adriana, a autora faz um bom trabalho ao não generalizar, mas sim, pessoas perturbadas podem encontrar na religião um combústivel um tanto eficaz.

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  14. Nossa, estou chocada com esse livro, ainda não li, mas pela sua resenha é possivel identificar que o tema é inovador e poletimo. Sou filha de pastor e quero muito ler esse livro para entender o que passa na cabeça desse pai perverso e na vida dessas meninas. bjos

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    1. Luiza, é um livro polêmico. Apesar de algumas resenhas na internet dizerem que a autora deixa tudo sugerido, eu acho que ela foi, a todo momento, bem clara.

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  15. Essa resenha me deixou com muita curiosidade de ler esse livro. Saber o que acontece com as gêmeas e com a família em si. Parabéns pela resenha! bjs

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    1. Larissa, também fiquei ansioso para ler o livro, e, com ele em mãos, tive uma grata surpresa!

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  16. Achei bem interessante só de ver a sinopse dele. Pela resenha dá pra ver que é bom, vale a pena ser lido e tem um história boa, como eu já esperava que tivesse. É gostoso ler livros quando vem aquela informação importante aos poucos, vai prendendo a curiosidade e faz a leitura ser melhor, dá vontade de chegar ao final.

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    1. Cristiane, a autora soube dosar a narrativa muito bem, ela vai prendendo o leitor aos poucos e, quando se percebe, não dá mais para largar o livro.

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  17. Olá Luciano
    Acabei de ler esse livro que me surpreendeu da mesma forma. A autora Reid soube estruturar a trama muito bem sem deixar arestas. Fiquei anestesiada com tudo que li e saber que um fanatismo doentio chega a levar um ser humano a castigar inocentes por char que são pecadores.
    Uma leitura que me envolveu página por página!
    Sua resenha soube maravilhosamente traçar os pontos marcantes dessa história.

    Beijos

    Saleta de Leitura

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    1. Irene, é muito bem escrito e nos prende, não é mesmo?

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  18. Adorei! Nem de longe pensei que a história fosse de uma carga dramática tão intensa, adoro isso num livro! Especialmente quando vc diz que foi uma surpresa maravilhosa, muito bom pegar um livro assim!
    Gosto de personagens bem construídos e pude perceber que o livro tem isso, além do mistério, da abordagem psicológica, drama e conflitos familiares, além da difícil situação de Reb. Lembrei mesmo de August, de Extraordinário... quero ler, já para os desejados!

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    1. Manu, por isso mesmo ele me surpreendeu tanto! Os personagens são cativantes, criamos com eles laços muito fortes que permanecem após a leitura.

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  19. Parece ser bem interessante esse livro, gosto daqueles que exitem uma grande tensão, parece que deixa tudo mais emocionante e você não vê a hora de chegar ao fim. Parabéns pela resenha.
    Beijos

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    1. Beatriz, esse é o tipo de livro, que nos prende e nos faz querer lê-lo em uma só sentada!

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  20. Nossa gosto muito de livros que me surpreendam e agora que li sua resenha estou com vontade de ler o livro mais do que eu já tinha assim que vi eu capa que me intrigou, com sua história.As pessoas podem ser bem fanaticas com relação a religião e fazer o mal até a alguém que se ama tanto, quero muito conhecer esse drama.

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    1. Cristiane, acho que todo o livro foi muito bem formatado, a edição é caprichada. Acho que a religião pode ser uma arma bastante eficaz de terror e opressão, mas não se pode generalizar - e isso a autora não faz.

      Abraços.

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  21. Quero muito ganhar! Esse livro é muito bom, sua resenha ficou ótima.

    Beijinhoss

    Letícia

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  22. Pela resenha pude perceber que tem muita coisa acontecendo nesse livro, despertando o interesse em saber tudo. Gosto desta forma de escrever que mistura passado, presente e futuro, uma coisa liga na outra e eu tenho que descobrir e ligar os fatos. Acho que sou meio detetive. Amei!

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  23. Elisa da Luz Adorna28 de outubro de 2013 21:18

    aos poucos vamos descobrindo os segredos

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