5 de maio de 2014

Boneca de Ossos, de Holly Black [Resenha #170]

Boneca de Ossos - Texto


Sinopse: Poppy, Zach E Alice sempre foram amigos. E desde que se conhecem por gente eles brincam de faz de conta – uma fantasia que se passa num mundo onde existem piratas e ladrões, sereias e guerreiros. Reinando soberana sobre todos esses personagens malucos está a Grande Rainha, uma boneca chinesa feita de ossos que mora em uma cristaleira. Ela costuma jogar uma terrível maldição sobre as pessoas que a contrariam. Só que os três amigos já estão grandinhos, e agora o pai de Zach quer que ele largue o faz de conta e se interesse mais pelo basquete. Como o seu pai o deixa sem escolha, Zach abandona de vez a brincadeira, mas não conta o verdadeiro motivo para as meninas. Parece que a amizade deles acabou mesmo...


Boneca de Ossos é o primeiro titulo publicado através do selo #irado, da Editora Novo Conceito, que tem como foco o público infanto-juvenil. Bom, nunca escondi o quanto me sinto bem lendo livros voltados para essa faixa etária, é sempre uma experiência proveitosa ler algo que foi escrito para leitores mais jovens, mas é preciso ter certo cuidado para não diminuí-los. Eu entendo as limitações que tem de existir devido ao público, e, assim, me divirto ainda mais.

Escrito por Holly Black – que é conhecida aqui no Brasil por ter escrito o “Gata Branca”, que eu desenvolvi uma curiosidade enorme para ler – em Boneca de Ossos conhecemos três amigos, um menino, Zach, e duas meninas, Alice e Poppy, que se conhecem há um bom tempo e estão entrando ali nos domínios incertos da adolescência, mas que ainda brincam com bonecos – tipo Barbie e Comandos em Ação – e criam suas próprias histórias, com um mundo próprio, inimigos, e, claro, uma Rainha, uma boneca assustadora de porcelana de ossos que são terminantemente proibidos de pegar para brincar, e que pertence à mãe de Polly.

Ok. De cara gostei muito da forma como a autora apresenta os três amigos e o ambiente no qual vivem e se desenrolará a narrativa: a aclimatação do leitor ao “universo” do livro é bastante intuitiva, ela fala um pouco sobre os meninos, a brincadeira, e os principais personagens desta, explicando também que o Zach, menino de doze anos brincando de bonecos com duas meninas, ligou o foda-se há um bom tempo, e não dá muita bola para eventuais zombarias de engraçadinhos quaisquer. Ele está no time de basquete da escola, então sabe cuidar muito bem de si.

Enquanto acompanhamos um dia de brincadeira dos três amigos, rotina de escola, e o contexto familiar, a autora vai inserindo aos poucos a ideia de transição que tanto me assustou lá na adolescência – em que ponto mesmo eu deveria crescer? O da primeira barba? Cara, eu entrei em parafuso com isso, e, somando a mais b, estou eu aqui com quase trinta me divertindo com infanto-juvenis como se não houvesse amanhã! – e ela confronta o natural, o despertar do interesse das meninas pelos meninos e vice-versa, o amadurecimento, os vinte centímetros que fulano cresceu durante o verão; com o repentino, que no livro se dá da pior e mais traumática forma possível: com a intromissão desastrosa de um adulto em assuntos sobre os quais tem controle zero.

É essa interferência que puxa o gatilho para a aventura que os três amigos viverão, e, se antes o livro tinha um cheiro nostálgico de vizinhança, agora ele ganha um toque de mistério, com um suspense que envolve, claro, a assustadora boneca de ossos.

Considero que o elemento terror foi muito bem dosado pela autora, e ela se utiliza de ferramentas clássicas de uma forma que elas funcionam sem que pareça pastelão para um leitor de dez/doze anos, são aquelas coisas de que todos nós temos medo quando crianças: o pegar um ônibus sozinho, em plena madrugada; o de conversar com um bêbado desconhecido; o do vento, que parece assoviar e deixa eriçados os pelos da nuca. Ela aposta ainda no “acreditar”; ela ganha muitos pontos ao sugestionar as crianças e não entregar tudo de bandeja: será que a história contada por Poppy é verdadeira ou só mais uma invenção para uma aventura, a última aventura? Histeria coletiva?

Outro ponto positivo é que os amigos tem personalidades bastante distintas, mas acho que Poppy foi vilanizada. Alice vive com a avó e gosta de peças de teatro, é a mocinha delicada, despertando para os hormônios da adolescência; Zach vem de uma família que tenta se reestruturar após um período de separação dos pais, é o garoto que já se destaca no time de basquete do colégio, com um futuro promissor ao lado de líderes de torcida; e Poppy é quem inventa as histórias, e tem sardas. Como assim?

E mais, o mundo é injusto com ela. Tudo indica para a ocorrência de algumas cores na amizade entre Alice e Zach – não é spoiler, todo livro ou filme com amizade entre meninos e meninas descamba pra isso, e eu tô apenas sugerindo, afirmando nada – ela pode acabar sobrando. Por isso, enquanto ficava na dúvida se a história que ela conta para que saiam em sua grande jornada era verdadeira ou fruto de sua imaginação comprovadamente fértil, eu dava todo o apoio do mundo à ela. Em seu lugar também faria de tudo para manter por perto meus amigos de infância.

Pra finalizar, o livro é bem escrito, e como estreia o selo #irado não poderia vir ao mundo com título melhor: bem estruturado, escrito de forma a não subestimar seu público, e repleto de ilustrações inspiradas, de autoria de Eliza Wheeler. Até os mais velhos gostarão.

 

Boneca de Ossos, de Holly Black com ilustrações de Eliza Wheeler (Doll Bones, 2013 Tradução de Barbara Menezes, 2014) – 224 páginas, ISBN 9788581633916, #irado. [Comprar no Submarino]

{B+}

15 comentários:

  1. Eu sabia que corria o risco de gostar desse livro, agora tenho certeza kkkkkk... Eu ando vivendo minhas manhãs com essa turminha sabe... Respiro fundo só de pensar... e talvez tenha esquecido que um dia já fui como eles... essa sua resenha me fez lembrar de minha passagem da infância para adolescência, de minhas primas e de meu primo que adorava me contar histórias de terror e me da sustos... Aliás, ele ainda adora me da sustos e é uma delícia se pegar a beira dos 30 apreciando os mesmo pequenos prazeres que eu apreciava a quase 20 anos atrás... certas coisas não podem envelhecer néh Luciano?!?!

    Cheros.... :p

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    1. Ah, tem coisas que não tem preço, família maluca e primos sem noção são uma delas! Eu gostei bastante do livro, leitura fácil, que deve agradar ainda mais aos mais novos ;)

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  2. Resenha maravilhosa!!!
    Senti isso tudo também. Se eu soubesse que aquela seria a última brincadeira, a última aventura, o que eu teria feito de diferente??
    Sim, o livro me levou à esta e outras reflexões...
    Vou confessar uma coisa, pra mim, você é o melhor resenhista da blogsfera literária!! Gente!! Nunca vi falar tão bem assim de um livro. Eu não tenho esse dom porque escrevo somente o que sinto, e às vezes isso é bem curto de acordo com a leitura, mas você é inigualável!!!!

    Pena não ter tempo suficiente pra vir aqui sempre. Um dia consigo!!! Adoro mesmo! Parabéns!!

    Bjkas

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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    1. Ahhh, obrigado, sério, fico muito feliz que pense assim ;) Sabe que eu começo uma resenha achando que vou ter pouca coisa pra falar e, quando vejo, ela já ficou desse tamanho! - até reclamaram que são longas demais, vai entender....

      Quanto ao livro, eu gostei muito, leitura rápida e de qualidade,a autora, em nenhum momento, menospreza seu público.

      Dois abraços ;)

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  3. Oi Luciano, tudo bem?
    Eu também gostei bastante desse livro. E concordo quando você disse que a Poppy foi vilanizada, e ela era justo a mais criativa, em consequência gostei muito mais dela.
    Olha, eu tenho 24 e ainda curto e muito algumas coisas que fazia com 10/11/12, acho que faz bem voltar um pouco e lembrar desses tempos, a minha unica tristeza é que crianças com essa idade deixaram de vivê-la com plenitude, e aproveitar mesmo esses últimos anos da infância. Uma pena.
    Ótima resenha.
    Abraços,
    Amanda Almeida
    Você é o que lê

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    1. Amanda, eu senti que, implicitamente, ela era tido como a culpada de tudo - até acho que seja, mas o tratamento deveria ser mais brando, já que ela teve suas razões e a entendo completamente!

      E, sim, é muito bom esquecer essa coisa de idade e se divertir a valer. A vida é muito curta!

      Dois abraços.

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  4. Adorei a proposta do livro e da editora! A Novo Conceito tem me causado um eterno sentimento de preguiça: os mesmos livros, as mesma capas, o mesmo blá blá blá. Mas, de repente, a editora jogou tudo pro alto e vem arrasando nos lançamentos! Good for you, NC.

    Eu me interesso nesse livro, também sou dessas que lê livro "de criança" mesmo tendo contas a pagar, compras a fazer e impostos a declarar. Acho saudável e super válido. Com esta resenha e esta capa, esse livro é bem do meu interesse.

    Abraços!

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    1. Lu, eu gostei bastante de tudo, tanto da história em si quanto da edição - e é verdade, parece que a editora está caprichando mais nesse aspecto. E é sempre muito bom ler livros "de criança", rsrs.

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  5. Resenha excelente!

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  6. Apesar de ser fã da autora e por isso vim cheia de expectativa p/ ler, acabei achando q ela perdeu a mão no enredo. Aí qdo de fato surge a tal aventura as coisas ficaram meio a desejar... =/

    Andy_Mon Petit Poison
    POISON BOOKS - Êxtase (Nicole Jordan) http://bit.ly/1mPI4lz

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    1. Pois é, eu fiquei com muita vontade de ler algo mais "maduro" dela, um título voltado para um público mais velho. Tenho a impressão de que devo gostar ;)

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  7. Marquei esse livro como 'vou ler', mas ainda estava com um pé atrás, pq ultimamente estou me decepcionando com livros juvenis (e até agora eu não sei se são os livros ou se sou eu o problema). Mas acho que vou apostar em Boneca de Ossos. Sempre fico curiosa com essas premissas que ficam na linha tênue entre imaginação e realidade. Tomara que nesse caso ela seja bem desenvolvida.
    Gostei da resenha!
    http://sete-viidas.blogspot.com

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  8. Acabei de comprar esse livro por um breço muito bacana no submarino, os livros que tem mais me chamado atenção esse ano são os da Novo Conceito :o

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  9. Oie,
    Vamos admitir que o melhor de ler livros de jovens ou infanto juvenis é voltarmos no tempo, eu me vejo com 50 anos e lendo livros desde infantis até o mais adultos..shauhs...amo ir e voltar no tempo através das histórias.
    Bom saber que gostou tanto e que provavelmente eu irei aprovar tanto quanto você. Amei a resenha...bjus elis!!!

    http://amagiareal.blogspot.com.br/

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Oscar