14 de maio de 2014

O Chamado do Cuco – Cormoran Strike Livro 01, de Robert Galbraith [Resenha #171]

O Chamado do Cuco - Texto


Sinopse: Quando uma modelo problemática cai para a morte de uma varanda coberta de neve, presume-se que ela tenha cometido suicídio. No entanto, seu irmão tem suas dúvidas e decide chamar o detetive particular Cormoran Strike para investigar o caso.

Strike é um veterano de guerra, ferido física e psicologicamente, e sua vida está em desordem. O caso lhe garante uma sobrevida financeira, mas tem um custo pessoal: quanto mais ele mergulha no mundo complexo da jovem modelo, mais sombrias ficam as coisas e mais perto do perigo ele chega.

Um emocionante mistério mergulhado na atmosfera de Londres, das abafadas ruas de Mayfair e bares clandestinos do East End para a agitação do Soho. O chamado do Cuco é um livro maravilhoso. Apresentando Cormoran Strike, este é um romance policial clássico na tradição de P. D. James e Ruth Rendell, e marca o início de uma série única de mistérios.


Em mais de quinze anos de leitura de romances policiais, esta é a segunda vez que isso acontece: não dei conta de terminar um livro. Eu tinha boas expectativas de me reencontrar com J.K. Rowling na figura de uma outra pessoa – aqui com o pseudônimo Robert Galbraith – onde, imaginei, ela estaria livre para escrever, para ousar, de uma forma que qualquer coisa com seu nome não permitiria, visto que lhe traria uma cobrança enorme. Até acho que ela fez tudo isso, mas faltou algo.

Em “O Chamado do Cuco”, o detetive Cormoran Strike é contratado por um ricaço para investigar a morte da irmã, uma mundialmente conhecida modelo, que a polícia concluíra que fora suicídio. O irmão pensa o contrário, mesmo com todo o histórico de depressão e outras doenças mentais que a moça apresentava, além do conhecido relacionamento com um ator/cantor viciado em drogas. É aquela coisa, ele, o irmão, tem muitas questões sobre o ocorrido e que, de certa forma, um “veredito” de assassinato ao invés de suicídio acabaria por sanar.

Uma das coisas que achei mais interessantes no livro é que Cormoran é um detetive do noir americano em plena Londres do Século XXI! Ele tem um escritório falido, está endividado, os clientes são poucos, e sua vida pessoal é uma bagunça – mesmo sendo ele filho de um rockstar, mas com quem não tem muita relação, e com quem faz questão que não o associem – além de um ferimento de guerra que vez ou outra lhe lembra que ele não é mais o homem de antigamente, e que precisa sossegar.

Eu gosto muito do noir, seus detetives são sempre tão interessantes ou mais que o próprio crime, eles sobrevivem em uma esfera além livro, com sua rotina de investigar algo, tomarem uns sopapos e terminarem o dia em um bar escuro e mal frequentado. No caso de Cormoran, ele ainda sofre com o clima londrino, mas sempre pode contar com o pub mais próximo para lhe forrar o estomago.

Como personagem, Cormoran é carismático. Eu senti falta de uma acidez pontual, de um sarcasmo, de um palavrão despretensiosamente colocado no meio de uma frase inocente. Cormoran é inglês, e, mesmo quando transgressor, me soou polido demais para um detetive em sua situação. Mas me afeiçoei a ele de certa forma, e nada tem a ver com suas limitações, simplesmente me identifiquei.

Assim como com sua secretária, Robin Ellacott, que tem um encontro tenso com Cormoran, mas que acaba se encantando além do normal com o ambiente do escritório, no interesse -  genuíno, não apenas curiosidade mórbida – de saber o que aconteceu com a modelo. Gostei dela, ela foge do convencional, ajuda Cormoran nas pesquisas, é bastante solícita e incrivelmente reservada em assuntos que “fogem de sua alçada”, como o fato de seu patrão dormir em uma cama de campanha no próprio escritório. Sem pontos negativos pra ela.

Mas, se até agora quase que apenas elogiei, qual o motivo de não ter conseguido terminar o livro?

Acho que foi uma somatória. Primeiro, não gostei dos métodos de Cormoran, ele é muito correto em seus interrogatórios, que são longos demais. Todas as suas entrevistas relacionadas ao caso duram mais do que deveriam e não são nada ágeis. Ele tem uma preocupação profissional acerca de seus métodos, mas eu estou acostumado com Elvis Cole e Belane botando tudo pra quebrar e falando mais pra si do que para o outro.

Outro ponto é que conhecer a família do detetive pode não ser a coisa mais interessante do mundo. Entendo que as relações sociais fazem o bom detetive, mas ela não pode ser monótona, e não sei porque raios o senhor Robert Galbraith achou que uma passada de Cormoran numa festa de aniversário de seu sobrinho seria interessante . Não foi.

E, ainda, as coisas demoram muito a acontecer, em boas três partes do livro não vislumbramos nenhuma pista do que Cormoran pensa sobre o caso – lá pelo final da terceira ele começa a “ter provas de que aquilo que ele imaginava poderia fazer sentido”. Mas que raios é que ele estava imaginando? Um romance policial NÃO PODE NUNCA EM NENHUMA HIPÓTESE excluir o leitor da ação da narrativa. Pistas. Sobre isso tem que se embasar a investigação. Confiança. É a relação que se espera que se estabeleça entre o detetive – na figura do narrador ou não, aqui, no caso, a narrativa flui em terceira pessoa – e o leitor. Não dá pra ser genial em uma brincadeira do “advinha o que eu estou pensando!” No máximo você fica parecendo um babaca.

Por fim, o crime não me moveu. A cronologia do que aconteceu é um tanto nebulosa no começo, e é em desvendá-la que se baseia o trabalho de Cormoran. Acho que faltou nele algo de diferente, que beire o irreal, que deixasse um quê de “o que raios aconteceu aqui”. Ou, talvez, já tenha lido policiais demais e poucas coisas me surpreendam.

É isso. Não posso dizer que desisti completamente do livro. Quero voltar a ele, mas o que acontece é que, depois de quase quinze dias de uma leitura arrastada, eu tinha que fazer a coisa andar. Então, vou respirar um pouco, me encontro com Cormoran mais tarde. De qualquer forma, volto pra contar o que aconteceu.

 

O Chamado do Cuco, de Robert Galbraith (The Cuckoo’s Calling, 2013 Tradução de Ryta Vinagre, 2013) – 448 páginas, ISBN 9788532528742, Editora Rocco. [Comprar no Submarino]

18 comentários:

  1. Nossa, e olha que eu estava, desde o lançamento, interessado no livro! Eu nunca li nada da Rowling, e estava cogitando em começar pelo pseudônimo dela - já que bastante gente estava fazendo burburinho em volta. Li até algumas resenhas animadas.

    Bem, acho que vou esperar mais um pouco até pensar em investir meu dinheiro nele, kk. Ótima resenha! Vou rever se ainda lerei esse.

    Abraços!

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    1. Joshua, o livro não é ruim por completo, mas eu não tive paciência pra ver onde tudo aquilo ia dar...quem sabe no futuro!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Estou bem surpresa com essa resenha! Eu admito que J. K. tem seus momentos arrastados (é preciso insistir muito em Morte Súbita, por exemplo), mas eu curti o livro. Talvez eu simplesmente tenha encarado de outra forma - perdi o interesse no crime e fiquei mais empolgada com Cormoran e Robin, eu queria saber como eles se dariam no final. Mas você nem tem uma pista do que acontece? O final é controverso, já aviso. hahahaha

    Abraços!

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    1. Lu, eu acho que joguei a toalha no momento em que as coisas começariam a se desenrolar de forma mais efetiva, talvez seja um momento ruim para mim, mas pretendo, num futuro próximo, terminar o livro. Quem sabe o final mude o que pensei dele....

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  4. Luciano, da Rowling li os cinco primeiros Harry Potter. Quando era adolescente adorava, achava tudo muito empolgante e engraçado. Não que eu tenha mudado de ideia, mas parei de ler depois de ficar mais mocinha porque percebi que tudo se repetia. Era sempre o mesmo ciclo Harry sofre de férias - volta para Hogwarts e fica feliz - aparece Voldemort e ele precisa sofrer novamente - derrota Voldemort e fica feliz - sofre de férias de novo. Cansei, MESMO. rs

    Daí, não sou fã da autora, por isso não me interessei por mais nada dela, nem por esse policial (que não é meu gênero preferido, definitivamente) nem pelo Morte Súbita.

    Adorei sua franqueza em vir dizer que abandonou o livro. Acho justo.

    Abraços.

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    1. Jéssica, eu gosto muito da Rowling em Harry Potter, li a maioria ainda adolescente e ficava em ânsia esperando pelos lançamentos, por isso fiquei um pouco ansioso com os lançamentos dos livros adultos dela, mas acabei passando batido pelo Morte Súbita e indo direto a esse. Não me dei bem não....

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  5. Eu tenho vontade de ler a J. K. e talvez leia, e se tem afetividade talvez corra o risco de gostar. Você sabe que suspense e romance policial não é bem minha praia, não sei bem porque, mas não é um gênero que me alimente integralmente como os meus romances com pegada mais introspectiva fazem e nem que alimentem minhas lombrigas literárias que não dispensam doces... Pelo contrario me causam incomodo e frenesi.... Talvez seja o fato de que eu termino o livro e fico com a sensação que não sei nada sobre os personagens... Segundo a Aleska o meu mal é que eu gosto mesmo é da intimidade... E de repente me ocorreu que eu possa gostar muito de um detetive que vai a festas infantis.

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    1. Ah, mas tem muito detetive que filosofa a exaustão! Tenta um do Crais, ele é bom nisso ;) Agora, eu sou um sujeito mais de ação, não tenho muita paciência para introspecção em livros, eles tem de me pager um um período relativamente favorável para sobreviverem comigo... mas se é a sua praia, bom, então deve gostar de Cormoran ;)

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  6. Caramba. Eu ganhei este livro e tá na fila, mas agora desanimei.
    Temos gostos parecidos, então se você não terminou, eu não vou conseguir passar da página 50.
    Uma pena pra nós dois.
    Bjkas

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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    1. Lele, mas tenta, talvez ele não tenha funcionado comigo, mas pode fluir melhor com você ;)

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  7. Oi, Luciano!
    O título do livro é excelente e por ele, tirava algumas conclusões, como se existisse uma contagem regressiva, um tempo imposto para as coisas acontecerem. Expectativas! melhor não tê-las!
    :)
    Beijus,

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    1. Luma, eu esperava um pouco mais - ou, pelo menos, um livro não tão parado...

      Beijos ;)

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  8. Nossa. Eu estou de olho nesse livro desde que lançaram e nunca imaginei que poderia ser tão sem graça. Na sinopse parece um policial daqueles pegados. Pena... O livro tinha tudo para ser maravilhoso! Quem sabe no próximo. Adorei a resenha. Bjoks da Gica.

    umaleitoraaquariana.blogspot.com
    @GicaTeles

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  9. Oi Amigo,
    Andei sumida, mas estou aqui, bem quando li a pré-resenha pensei, poxa não acredito que vou me decepcionar, mas ai fui lendo e vi que não terminou, e vi uns comentários aqui e acho que pra mim de repente seja melhor...já que eu ainda estou lendo Harry Potter e amo cada novo livro que leio....uma pena não ter gostado da leitura, espero que eu goste, afinal minha mente é uma viagem...shaushua....boas próximas leituras....bjus elis!!!!
    http://amagiareal.blogspot.com.br/

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  10. Ao navegar pela net encontrei o seu blog, não li muito,mas gostei do que vi e li,espero voltar mais algumas vezes,deu para ver a sua dedicação e sempre aprendemos ao ler blogs como o seu.
    Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante, e se desejar deixe um comentário.
    Abraço fraterno.António.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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  11. Faz pouco tempo que li o Chamado do Cuco. Confesso que esperava mais do cuco e concordo plenamente com que você escreveu (aliás, ótima resenha!), tanto nos negativos quanto nos positivos. Vai ver foi por isso que Rowling usou o pseudônimo e preferia o anonimato - as críticas. Mas são construtivas e acho que acabam ajudando. Também penso que a autora escreve muito bem e administra com maestria as palavras.
    Beijokas!

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  12. Agora já sabe quem é o assassino ou ainda não?

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Oscar