11 de agosto de 2014

A Menina Mais Fria de Coldtown, de Holly Black [Resenha #182]

A Menina Mais Fria de Coldtown


Sinopse: No mundo de Tana existem cidades rodeadas por muros são as Coldtowns. Nelas, monstros que vivem no isolamento e seres humanos ocupam o mesmo espaço, em um decadente e sangrento embate entre predadores e presas. Depois que você ultrapassa os portões de uma Coldtown, nunca mais consegue sair. Em uma manhã, depois de uma festa banal, Tana acorda rodeada por cadáveres. Os outros sobreviventes do massacre são o seu insuportavelmente doce ex-namorado que foi infectado e que, portanto, representa uma ameaça e um rapaz misterioso que carrega um segredo terrível. Atormentada e determinada, Tana entra em uma corrida contra o relógio para salvar o seu pequeno grupo com o único recurso que ela conhece: atravessando o coração perverso e luxuoso da própria Coldtown. A Menina Mais Fria de Coldtown, da aclamada Holly Black, é uma história única sobre fúria e vingança, culpa e horror, amor e ódio.


Quando terminei a leitura de “Boneca de Ossos”, ansiava por ler lago mais da autora Holly Black que estivesse um tanto mais próximo da minha faixa etária, por acreditar que, de certa forma, seria algo mais elaborado, denso, um pouco mais maduro. Até que recebi da Editora Novo Conceito o “A Menina Mais Fria de Coldtown”. Era hora de tirar a prova.

No livro, conhecemos Tana, uma garota que vive em um mundo onde os vampiros são revelados – ou seja, os humanos sabem da existência deles como algo muito maior que o simples folclore a que estamos acostumados – e, como era de se esperar, a população fica mais ou menos divida em dois grupos: os que acham que eles são monstros, e os que se apaixonam pelo glamour de uma vida eterna.

Os próprios vampiros não entram em consenso sobre diversos pontos, como por exemplo se devem manter-se em um grupo seleto como um clube altamente restrito, de criaturas “afortunadas” com a já citada vida eterna, e outras habilidades superdesenvolvidas, com uma quantidade enorme de gado á disposição – e em gado leia-se nós – ou se devem espalhar a dádiva e fazer do mundo uma grande festa, o que poderia fazer minguar a oferta de alimentos. Assim como se devem ser discretos quanto ao seu lifestyle ou fazerem de tudo um circo televisionado para quem quiser ver.

O fato é que, mesmo não concordando entre si, os vampiros mantiveram-se em um grupo restrito por um bom tempo, até que alguém mais ousado – ou insano, como Caspar Morales – decidira sair mundo afora espalhando o vírus e deixando um rastro de novos vampiros pelo mundo todo. Quando os vampiros da velha guarda perceberam o que estava acontecendo, criaram uma função específica dentro de sua hierarquia, um cargo onde um vampiro deveria caçar os recém transformados e aquele vampiro – descuidado ou rebelde – que o transformara, o detentor do cargo é chamado de Espinho. Já quando os governos deram por si, sitiaram cidades inteiras, construíram muros e deixaram presos lá dentro tanto os vampiros quanto os humanos que tiveram o azar de morar no lugar errado na época errada. São as chamadas Coldtowns, que nada mais são que guetos onde os vampiros são a elite e ao redor de quem toda a coisa gira, invertendo até mesmo a ordem do dia, com todo mundo dormindo durante o dia e “vivendo”, cada qual à sua maneira, durante a noite. Quem está em um gueto não pode sair – a menos que consiga um salvo conduto – mas o governo decidira não mais impedir de entrar quem fosse idiota o bastante para se aventurar lá dentro.

O vampirismo em si é tratado como uma doença. Uma pessoa mordida por um vampiro fica “resfriada”, e se, em um período de até oitenta e oito dias, não ingerir sangue humano, não necessariamente se torna um vampiro. O problema é que com o passar dos dias a fome por sangue do indivíduo resfriado só aumenta, tornando quase impossível que ele resista à tentação.

É nesse mundo que Tana vive e é aterrador acompanhar as primeiras passagens do livro. Sério, Holly Black me conquistou logo ali, fazendo-a despertar em uma banheira, em meio a um verdadeiro massacre, e com os reflexos de quem tomou todas na noite anterior e que leva uma eternidade para somar dois e dois, com o inevitável choque ao perceber quantas burrices estivera fazendo desde que acordara, e que precisava reverter isso o quanto antes, se quisesse sobreviver.

Tana é uma personagem por quem é fácil simpatizar. Ela é descolada mas não se acha a última bolacha do pacote, e – assim como fez em Boneca de Ossos – há carga dramática envolvida de fundo familiar, mas, claro, que de forma bem mais acentuada e trabalhada com boa ênfase. Então é natural a torcida que se faz por ela logo que ela acorda e tem de se virar para sair daquele lugar, assim como salvar seu ex-namorado, o chaaaaato do Aidan, e Gavriel, uma figurinha estranha, que adiciona um bom mistério à trama. A decisão de ela ir até a Coldtown de Springfield, uma das mais movimentadas com transmissões de bailes e festas épicas promovidas por vampiros que são verdadeiras celebridades aqui fora, é bastante sensata e me convenceu.

E é lá que a coisa toda acontece. Se eu queria ler algo mais da autora para ver como ela se sairia narrando algo mais “maduro”, bom tenho aqui minha prova de sua competência. A narrativa em terceira pessoa de que ela faz uso é certeira, e funciona muito bem, com o livro transcorrendo com uma enorme facilidade de assimilação e de aclimatação do leitor aos mais variados ambientes e situações.

Mas talvez não tanto quanto às personagens. Muitas personagens secundárias aparecem no decorrer do livro e algumas delas não me caíram bem. Bom, eu tiro o chapéu pra um jovem transexual que se sentia deslocado em sua cidade natal e parte para Coldtown por acreditar que lá, um lugar repleto de excessos e desvarios comandado por um vampiro superpopular, não será apontado por ser diferente, mas tem uma blogueira da Capricho que eu vou falar hein, taca fogo! Porém eu reconheço que isso foi construído pela autora de caso pensado. Quantos posers não surgiriam se na vida real algo do tipo acontecesse? Gente que gostaria de estar ali só porque está na moda e vai contra o que acredita a última geração? Milhares! Tem muita gente babaca nesse mundo, então por que raios elas não poderiam estar também em um livro?

De forma geral foi uma leitura que me deixou amplamente satisfeito. Os personagens principais são carismáticos, o enredo é bem construído, e a coisa toda de uma vida em um lugar como uma Coldtown funciona dentro daqueles limites claros que “as coisas tem de acontecerem de alguma forma para que o livro em si possa acontecer”. Eu gostei, muito. E recomendo.

Pra dona Holly Black, um recado: eu quero um livro sobre Caspar Morales!

 


+da autora: Boneca de Ossos

 

A Menina Mais Fria de Coldtown, de Holly Black (The Coldest Girl in Coldtown, 2013 Tradução de Ana Death Duarte, 2014) – 384 páginas, ISBN 9788581634036, Editora Novo Conceito.

{A-}

7 comentários:

  1. Pergunta: É uma série/trilogia ou um livro só?

    Eu adorei Boneca de Ossos (quantas vezes já disse isso hoje?), então leria Coldtown numa boa. No entanto, sinto que o livro tem muitos elementos óbvios do Young Adult que passaram a me incomodar. Não deixaria de ler o livro por isso, mas não faria da história uma prioridade imediata. No geral, parece uma boa leitura e me interessou. Mês que vem, quem sabe!

    Abraços!

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    1. Lu, eu sou um blogueiro ignorante, rsrs, acho que é um livro só, mas certamente há espaço para continuações. E, olha, eu gostei bastante do livro, ela sabe dominar a narrativa e é tudo o que eu esperava dela após ler o Boneca. Vale a pena ler!

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  2. Eu não sou de julgar o livro pela capa, mas gostei desse livro e coloquei ele na minha lista de desejados por isso... Mas, por outro lado, tenho um enorme preconceito com histórias de vampiros e ai fico naquele encima do muro básico, no vou não vou vou... Mas, "Boneca de Ossos" está, graças a SUA má influencia, no kobo, vou deixar para sair de cima do muro depois de ler e testar a autora.

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    1. Ah, a capa dele é muito linda!, e em mãos é ainda melhor! Então, eu gostei, é uma abordagem não muito original mas pelo menos coesa com o folclore vampiro.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Eu não tinha nem lido a sinopse ainda. Queria me surpreender. Aí venho aqui e leio a resenha. Tipo, já tô bem surpresa. Quero ler o livro logo!!!
    Adorei o nome do Caspar "Morales", hahaha, é meu sobrenome.
    Gosto muito de ler mais sobre vampiros, nunca me canso deles. Sei que vou amar o livro, Coldtown, Tana, tudo!!!!
    Resenha MARAVILHOSA!!

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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    1. Lelê, o livro é muito bom! Vale muito a pena ler, a Holly Black sabe como entreter e manter fiel seu leitor.

      E que coincidência hein!

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