20 de março de 2015

Tyrant – Primeira Temporada

Tyrant

Demorei a me render a Tyrant, mas depois que percebi todo o potencial que havia ali assisti com um sentimento de urgência aos dez episódios da primeira temporada.

Criada por Howard Gordon, Gideon Raff e Craig Wright, ela conta a história de Bassam Al-Fayeed (Adam Raynier), filho de um ditador de um pequeno país do Oriente Médio que, fugindo do pai, considerado por todo o mundo como um ditador sanguinário, se auto-exilara nos Estados Unidos, onde se casou com uma americana e teve filhos, levando uma vida em tudo diferente da que ele teria se tivesse permanecido em seu país.

Até que seu sobrinho vai se casar, e seu irmão faz questão da sua presença. Apesar da resistência inicial, é convencido por sua esposa – Molly (Jennifer Finnigan) – e seus filhos – comentário de adolescente americano estúpido “nós somos tipo a família real por lá!” – então decide ir, mas prometendo a si mesmo ficarem somente o necessário, retornando para casa o mais rápido possível.

Tyrant

O importante aqui é observar que Bassam passou anos fugindo da família e do terror – e desprezo – que o sobrenome Al-Fayeed trás com ele. O país que governam, o fictício Abbudin, tem um histórico de violência contra minorias étnicas, além de todos os problemas que se vêem em países em desenvolvimento, mas que parece não abalar a classe dominante, que vive em palácios e desfrutam de luxos inimagináveis – o típico cenário que rodeia as ditaduras pelo mundo.

O que me deixou meio incerto quanto ao Bassam é que a família dele sente sua falta – são muito bem recebidos quando chegam para o casamento, o fato de ser casado com uma americana (e ter americanizado seu nome, sendo chamado por ela de “Barry”) não tem peso algum nem levanta suspeitas de que ele se corrompera pelo imperialismo americano ou o raio que o parta. Sua mãe é inglesa, o país é aberto ao turismo internacional, e uma base americana está instalada nas imediações. – Por quais motivos, então, Bassam fugira? Ah, sim, seu pai é um militar linha dura, que sempre treinara os filhos para serem os líderes de que o país precisa para seguir, em seus próprios termos, prosperando; e isso inclui um atentado sofrido ainda crianças, e, mais tarde, com ele já morando nos EUA, uma acusação de genocídio contra seu pai.

Fazer o quê, família a gente não escolhe, não é mesmo.

Tyrant

Acontece que o país está passando por um movimento do tipo “Primavera Árabe”, o povo está insatisfeito, e o ditador morre. Bassam, a pedido do irmão mais velho e herdeiro anti-natural ao poder, Jamal (Ashraf Barhom), decide ficar no país por mais um tempo, para ajudá-lo nesta transição.

É aqui que as coisas se complicam. Jamal é um puta de um psicopata, torturador e quantos outros adjetivos nada honrosos conseguirem imaginar. Além de babaca. Para saberem o quão babaca é, ele tem uma coleção de carros importados enquanto o povo sobrevive a duras penas. O que fica logo claro é que Bassam pouco pode ajudá-lo, pois todos consideram seus pontos de vista ocidentais demais e um tanto impróprios para seu país, o que frequentemente faz com que Jamal, por respeito e desejo de que o irmão fique por perto, se indisponha com seus conselheiros, sempre dispostos a tomar medidas mais rígidas para manterem a população sob controle.

Como exemplo, o responsável pela segurança do país, General Tariq Al-Fayeed (Raad Rawi) – tio de Bassam e Jamal – acha que a melhor forma de dispersar uma manifestação popular é matar uma ou duas dúzias de insurgentes, e prender outro bocado e executá-los sumariamente em praça pública, para, sabem, servirem de exemplo. Para Bassam, a melhor saída é o diálogo.

Tyrant

O que me fez perceber o quão ingênuo é Bassam ou – e este pensamento é de certa forma complementar – o quão sanguinário eu seria se fosse um ditador e estivesse no poder. Até mesmo os rebeldes ironizam a opção pelo diálogo, do quanto Bassam é fraco, de como sua estada na América e sua loura esposa fizeram dele um covarde patético, e de como a resposta para todos os problemas que possuem – e o caminho mais rápido para desestabilizar o governo Al-Fayeed – é o terrorismo.

Um ponto que merece destaque é o quanto os roteiristas da série caracterizaram o líder dos rebeldes como um enganador. Ele nunca está envolvido diretamente na execução dos atentados, é sempre o primeiro a sair de cena quando as coisas apertam, e, apesar de se declarar com o povo e pelo povo, é filho de um líder tribal que, ele sonha, chegue ao poder. Cada um que tire suas próprias conclusões.

A série tem um desenvolvimento que prende o telespectador. Conforme vai passando o tempo e Bassam conhece seu país, mais ele sente o quanto seu irmão é inapto para o cargo, ao mesmo tempo em que sabe que, caso sua família seja deposta, toda ela corre imenso risco de morte, podendo ser hostilizados pela população. Bassam toma então uma decisão inesperada, que dá um twist sensacional e, promete, ditará o andamento da segunda temporada.

Acho que vale a pena mencionar, nos primeiros episódios foi mostrado que o filho de Bassam é homossexual, achei que a série abordaria o tema – especialmente incômodo no Oriente Médio – mas os roteiristas parecem ter se esquecido completamente disso ao longo da temporada. Talvez já tivessem muito do que tratar em um curto espaço de tempo, talvez temessem represálias, talvez, talvez…

Mas, dos males o menor. Tyrant – que aqui no Brasil recebeu o nome de Tirano – foi renovada para a segunda temporada.

 

Tyrant (Tyrant – USA, Season 1: 2014) Criada por Howard Gordon, Gideon Raff e Craig Wright. Com Adam Rayner, Jennifer Finnigan, Ashraf Barhom, Moran Atias. FX. Créditos completos aqui.

{ A }

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PS: o resultado do “Quem é o Autor?” será postado na próxima quarta-feira.

6 comentários:

  1. Uau! Isso é que é série promissora! Eu tenho um fraco terrível pela cultura árabe, sou apaixonada pela poetisa do Alcorão e pela produção literária árabe, me senti tentada a vê a série... o problema é que eu acompanho uma centena de capítulos de novela, mas quando chega a ver de uma simples série passo uma vida kkkkkkkkk

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  2. Oi Luciano!
    Não conhecia essa série (pra falar a verdade, ando super por fora das séries), mas ela parece ser bem original. Acho que nunca vi uma série americana sobre a cultura árabe!

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  3. Acho muuuuito interessante e necessária a abordagem da série, mas é aquela coisa, os produtores não dão ponto sem nó. Esse tipo de série pode se tornar propaganda, então me interessa ver o desenrolar e a abordagem, vou dar uma procurada!

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  4. Oi Luciano.
    Eu não conhecia a série, mas foi a ambientação dela que despertou meu interesse, vou assistir o pilot.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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  5. Oi Luciano.
    Eu não conhecia a série, mas foi a ambientação dela que despertou meu interesse, vou assistir o pilot.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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