13 de julho de 2015

Estava Escrito, de Gunnar Staalesen [Resenha #228] [Desafio de E-Books 2015]

Estava Escrito


Sinopse: As aventuras do detetive Varg Veum o levam a um mundo obscuro, em que adolescentes privilegiados são atraídos para as drogas e a prostituição. E a situação fica ainda pior quando o juiz local é encontrado morto em um hotel de luxo, usando lingerie, e pais desesperados imploram para que Veum encontre uma garota desaparecida.

No rastro das pistas que encontra, Veum percebe que precisa seguir com suas investigações no impiedoso submundo de Bergen, na Noruega. O que era, a princípio, uma investigação de rotina, torna-se um jogo extremamente perigoso e eletrizante, que o detetive precisará resolver em uma corrida contra o tempo…


Fazia já algum tempo que não lia um romance policial e senti uma necessidade muito forte de fazê-lo quando terminei o “O Dia Depois de Amanhã”, quase como se precisasse disso para não cair em uma ressaca literária – que sempre acontece comigo quando termino livros dos quais gosto muito e fico pensando neles ainda um bom tempo depois de terminada a leitura. Somado ao fato de que tinha muita curiosidade em ler algo do catálogo da Vestígio – que publica essencialmente policiais – decidi ler o “Estava Escrito”, que ainda tem o bônus de ser um policial nórdico, que já andou mais na moda, é verdade, mas sempre é tempo para se conhecer novos autores.

Em “Estava Escrito”, escrito por Gunnar Staalesen, o detetive particular da vez é Varg Veum, formado em serviço social e que trabalhara um bom tempo como conselheiro tutelar. Ele segue o padrão do detetive de meia idade com uma história familiar complicada, mas sempre com a chama do amor acesa e a capacidade de admirar a companhia de um copo de bebida, apesar de Veum, excentricamente, ser bastante comedido neste quesito.

– Uma boa risada faz com que você viva mais, Varg. Nunca ouviu falar nisso?
– Ouvi. Mas meus dias já são longos o suficiente.

Pelas pesquisas que fiz, este é o décimo primeiro livro do personagem, então aqui fica aquela questão de eu não ter acompanhado seu cânone, seu desenvolvimento, e alguns dos acontecimentos e personagens do livro lavam Veum a relembrar fatos que, eu imagino, se passaram em outras aventuras. O leitor perde um pouco na identificação, na empatia com o personagem, mas o livro pode muito bem ser lido para quem nunca teve um contato com o personagem antes, como eu.

Veum é procurado por uma senhora que diz que sua filha está desaparecida há alguns dias, mas que seu ex-marido relutara em chamar a polícia pois ela já desaparecera antes e voltara para casa sem dar maiores explicações, mas, desta vez, a mãe teme que algo mais sério possa ter acontecido. Ele então começa sua investigação buscando conhecer quem era a garota desaparecida – algo que remete à sua formação e emprego anterior – seus amigos e os locais que costumava frequentar, mas a investigação flui devagar, com ele tendo consciência de que as amigas de Torild – a adolescente desaparecida – lhes dizem muito menos do que sabem, o que dificulta seu trabalho.

– Você sabe onde ela está?
– Não. Nem sabia que ela tinha sumido!
– Quando foi que você a viu pela última vez?
– Última vez? Hei, inspetor Morse, o que você pensa que eu sou, um elefante? Não tenho a mínima ideia. Provavelmente algum dia da semana passada.

Gostei de Veum. Ele transita em um meio termo, não é debochado ou desrespeitoso em excesso, mas sabe ser provocador e ácido quando precisa, além de estar um uma idade e com anos de profissão que lhe permitem ligar o foda-se sem muita dor na consciência, o que faz com que seja bastante agradável acompanhar seu ponto de vista, já que o livro é narrado em primeira pessoa.

O homem que lia o diário cristão olhou em minha direção com o cenho franzido, como se suspeitasse que eu pudesse ser um agente secreto russo, que tinha se infiltrado na escola com os bolsos cheios de camisinhas, para dar início a uma campanha maciça voltada para os jovens espíritos suscetíveis.

Por ser um romance policial nórdico, o clima é um elemento importante, e uma coisa interessante é que Veum descreve muito mais ele que a paisagem, a cidade norueguesa de Bergen, como se fosse a situação climática – no decorrer do livro um fim de inverno no qual as temperaturas teimam em não subir – algo que tenha uma influência psicológica nele muito maior que o ambiente onde vive.

Os capítulos curtos e o personagem carismático deixam a leitura bastante fluída – mérito também da tradução da Elisa Nazarian – e apesar de não requerer raciocínios mirabolantes como nas aventuras de Poirot ou Holmes, este tipo de policial, que narra algo do cotidiano, crimes comuns, me atraem muito; até porque o autor leva o leitor com ele, faz com que ele veja o que Veum está vendo, e esta sensação de cumplicidade, de saber o que o detetive sabe é de extrema importância para experiências com este tipo de literatura.

Sem contar que a história se desenvolve de forma consistente, e o autor introduz temas pesados como prostituição, corrupção de menores e drogas sem fazer panfletagem ou um estardalhaço desnecessário, mantendo como foco o crime que Veum tem de resolver.

Só me resta esperar que mais livros do autor sejam publicados por aqui. Por sinal, muitos livros da série Varg Veum foram adaptados, só não tenho certeza se para o cinema ou como telefilmes, inclusive o “Estava Escrito”.

 

Estava Escrito – Varg Veum Livro 11, de Gunnar Staalesen (Skriften på veggen, 1995 – Tradução do inglês de Elisa Nazarian, 2013) – 352 páginas, ISBN 9788582860052, Editora Vestígio.

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Desafio de E-books 2015

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6 comentários:

  1. Esse povo nórdico gosta de policiais né?

    Porque já li vários assim, noruegueses, na neve.... e por aí vai. E se você curtiu esse, já te adianto que esse ano tem outra leva desses livros para serem lançados.

    Enfim, vi esta capa no site da editora e achei bem enigmática. A sua resenha foi a primeira que li.

    Eu gostei, viu!!! Se a capa já tinha me chamado a atenção, a resenha acabou de fechar. Dica anotada e acrescentada na imensa lista de desejados!

    Bjks

    Lelê

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    1. Pois é, gostam muito! Eu estou com outra na lista espero me surpreender com ele tanto quanto me surpreendi com esse!

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  2. Eu adoro livro policiais, basicamente não dispenso nenhum rs então vou anotar a dica e com certeza o clima desse me chamou muito atenção porque me lembrou o livro "deixa ela entrar" (claro que são histórias totalmente diferentes) mas acho que é por causado lance do clima mesmo... neve e esse lado sombrio que essas histórias nórdicas como você mesmo descreveu, trazem.

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    1. Também me sinto em casa com policiais, sempre me envolvo com a história e a coisa flui muito bem!

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  3. Chegar aqui e ver uma resenha de livro policial trás para mim alguma coisa de reconfortante... é como se a passagem do tempo não alterasse tanto a ordem do mundo sabe? Porque romance policial é algo que eu associo ao seu gosto literário Luciano!

    Curto muito sua escrita, mesmo quando não curto o livro ou sei que dificilmente vou chegar a ler ele porque realmente não sou de tramas policiais, meu lugar de conforto, acho que você sabe, é mesmo um bom romance daquele tipo bem clichê!

    Cheros.

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    1. Bom saber! Que este lugar seja cada vez mais "familiar"! É sempre bom se aventurar por estes lugares ;)

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