7 de julho de 2015

O Dia Depois de Amanhã, de Robert A. Heinlein [Resenha #227] [Desafio de E-books 2015]

O Dia Depois de Amanhã


Sinopse: Também lançado como "A Sexta Coluna", Nº20 da Coleção Argonauta. Robert A. Heinlein conta-nos neste fascinante romance a história da conquista e ocupação da América por invasores asiáticos. Apenas seis homens em todo o país poderão transformar a derrota em vitória! Seis homens contra quatrocentos milhões! Num laboratório-fortaleza escondido nas montanhas rochosas, estes homens planejam uma revolta que ultrapassará tudo quanto se possa imaginar! Trabalhando nas profundezas do solo, secretamente, constroem uma arma que fará estremecer o mundo. Estão determinados a defender o seu país da aniquilação total.Este livro é tão empolgante como um romance de aventuras, tão fascinante como documentos governamentais secretos, tão lógico como uma experiência científica. Heinlein confronta-nos com a velha máxima de que, se a tecnologia for suficientemente avançada torna-se para o comum dos mortais indistinguível da magia, e, é armados com essa magia que os nossos heróis conseguirão derrotar probabilidades impensáveis. Além do mais, o mais fascinante do livro é a compreensão do autor dos meandros e comportamentos do pessoal integrado em exércitos. Apesar de muitas vezes pensarmos que um exército é um monte de pessoas desorganizadas, um exército eficaz é um modelo de organização que é seguido em todo o mundo por homens de armas mas também por empresas privadas que usam os seus princípios organizativos para orientar os seus negócios. Como demonstração do que um exército deve ser, o livro é excelente, apesar de em certos aspectos ter uma atitude ingénua e juvenil, tão típica de Heinlein nos seus princípios de carreira.


Robert A. Heinlein já havia deixado em mim impressões bastante fortes com seu clássico “Tropas Estelares”. Considerado um dos três pilares sobre os quais a ficção científica clássica se desenvolveu, ao lado de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, o autor criou alguns dos enredos mais originais do gênero, então eu simplesmente tinha que ler algo mais dele. E esse é o caso de “O Dias Depois de Amanhã

IMPORTANTE: não confundam o livro com o filme de mesmo nome, eles não tem relação alguma entre si.

Em “O Dia Depois de Amanhã”, Heinlein nos apresenta um Estados Unidos da América completamente dominado pelo Celeste Império, uma liga de pan-asiáticos que já dominavam metade do mundo, incluindo países superpopulosos como Índia ou superpotentes como a União Soviética, que não foram páreos para conter os avanços do invasor.

Em sua gana por novos territórios, para expandirem sua cultura e se aliviarem da superpopulação que enfrentavam em seus países natais, os invasores agiram coordenadamente, assinando tratados de não ingerência que lhes permitiam agir na surdina, pegando seus alvos despreparados e subjugando todo o país. Como se poderia esperar em casos de ocupação, retiravam dos cidadãos locais tudo que lhes lembrasse a antiga pátria, sua liberdade e, em casos de mínima demonstração de descontentamento para com os novos mestres, lhes eram aplicadas lições que, transmitidas pela tevê, serviam de exemplo a fim de se evitarem novos amotinamentos. Por acreditarem que eram benéficas ao opressor, por acalmar as iras dos oprimidos, os pan-asiáticos permitiam apenas um tipo de manifestação aos americanos: a religiosa.

Eles estão a esmagar sistematicamente tudo quanto se relaciona com a cultura americana. As escolas fecharam, o mesmo tendo acontecido aos jornais. É pena capital imprimir alguma coisa em inglês. Anunciaram que iam criar um sistema de tradução que permitisse que toda a correspondência comercial fosse traduzida para a sua própria língua; enquanto tal não se concretiza, só o correio estritamente necessário é permitido. Foram proibidas quaisquer reuniões, excepto as de carácter religioso.

Acontece que um grupo de cientistas, trabalhando para o exército americano, continuam mesmo depois da ocupação escondidos em uma fortificação no seio das montanhas rochosas, a Cidadela, e depois de um acidente, que vitima grande parte dos cientistas do local, descobrem algo que pode mudar o rumo dos acontecimentos.

E aqui Heinlein nos brinda com uma ficção científica de respeito. Os cientistas da Cidadela descobrem um novo espectro de radiação – ou raios – capaz de ser adaptado e utilizado para diversos fins. Como uma arma, podem ser regulados a atuar em uma frequência de onda específica que liquide apenas os pan-asiáticos, sem mal algum fazer aos brancos; como força motriz, pode levantar, esculpir e trabalhar grandes porções de material, independente do peso; além de poder transmutar matéria, servir como comunicação irrastreável, agir nas causas específicas das doenças sem nenhum tipo de efeito colateral e etc. São inúmeras as aplicações dessa onda, chamada de efeito Ledbetter, em homenagem ao cientista que a desenvolvera, e que morrera no acidente.

Porém, o problema é em como utilizar o Ledbetter para derrotar os pan-asiáticos todos de uma vez, sem que dêem chance para que se apercebam do que está acontecendo e não tenham oportunidade de retaliar, vitimando americanos inocentes. É esse dilema que os cientistas da Cidadela, juntamente com seu superior o Coronel Ardmore, e Thomas, tem de resolver.

Apenas com isso Heinlein já havia se mostrado, para mim, mais uma vez um autor engenhoso, preciso, que me entregaria um livro brilhante, mas ele foi além. A forma como os membros da Cidadela decidem agir é brilhante, e aqui me felicito mais uma vez por não ler sinopses: eles decidem usar da única manifestação que os pan-asiáticos permitem aos subjugados, a religião.

O Discípulo vai chegar!

Eles criam a igreja do deus Mota, um deus com milhares de facetas, sendo que cada integrante da Cidadela “encarna” uma delas, agindo de acordo com seus atributos. Utilizando amplamente o efeito Ledbetter, produzem bastões capazes de propagar os raios de diversas maneiras, letais ou não, além de produzirem o tão necessário ouro para que levem adiante as atividades da religião, como dar abrigo aos necessitados e comida aos fieis, além de operarem curas.

Sheer mostrou o material com que estivera a trabalhar. Aparentemente, não parecia diferente do resto dos elementos. Tratava-se de um bastão com dois metros de comprimento e encimado por um cubo decorado, com dez centímetros de aresta. As faces do cubo eram coloridas, correspondendo cada um dos tons ás cores do grande templo. As faces do cubo encontravam-se cobertas de intricados arabescos, gravados a dourado, e delicados desenhos em baixo-relevo. Todos estes artifícios escondiam, efectivamente, os controlos do projector, que se encontrava no interior do cubo.

É evidente a alfinetada que o autor dá no papel da religião na vida do indivíduo, tanto na visão dos pan-asiáticos, que vem a religião como algo que acalma os anseios e descontentamentos dos povos subjugados; como dos membros da cidadela, que abertamente falam em fazer uma pantomima para atrair fiéis – oferecendo pão e cura – para atraírem cada vez mais gente, difundindo uma mensagem que, aparentemente inocente, seja capaz de alimentar, no íntimo dos “fiéis”, uma esperança, a de que o discípulo – um salvador, irá chegar.

Através da igreja, eles esperam identificar dentre os fieis pessoas capazes de serem recrutadas e treinadas para levar o plano adiante, se tornando novos sacerdotes de Mota e abrindo filiais da igreja por todas as principais cidades americanas que disponham de aparato militar pan-asiático, a fim de que, no momento certo, sejam capazes de agir todos ao mesmo tempo, sem que sejam dada oportunidades de respostas ao invasor.

O livro recebeu críticas, tanto pelo modo como configura a sociedade quanto pelo tom mundano que dá as igrejas – apenas um meio para atingir determinados fins (sem querer polemizar, mas, não é o que muitas pessoas fazem ainda hoje?) – e por críticas à forma depreciativa com que se refere aos pan-asiáticos.

Diversas vezes o autor se refere a eles como os “macacos amarelos”. É algo pesado? No contexto do livro, com certeza não. Estamos falando de um país dominado e de cidadãos outrora livres vivendo como escravos, com seus direitos reduzidos à nada. Eles estão em guerra – uma guerra que os pan-asiáticos consideram vencida, mas que é travada todos os dias na Cidadela – então como queriam os críticos que os americanos se referissem aos inimigos? Flores na ponta de fuzis só funcionam em fotos.

O interessante é que o livro foi baseado em uma história de John W. Campbell, chamada “All”, que ele ficara preocupado em publicar por causa dos aspectos racistas que inevitavelmente a história apresentava. Heinlein então tentou amenizá-los mas mesmo assim foi criticado. O fato de aparentemente não existirem negros ou latinos dentre os americanos escravizados e da ideia de uma arma capaz de matar especificamente um grupo étnico foram elementos que contribuíram ao ataques que o livro sofreu.

— Não pode haver mulheres entre aqueles que vão fazer de sacerdotes?
— Qual é a sua opinião?
— Acho que não. Essas ratazanas têm um conceito muito fraco sobre a mulher. Não me parece que a mulher-sacerdote pudesse ter alguma operacionalidade a contactar com eles.

Sem procurar pelo em ovo, achei o livro um dos mais inteligentes que já li. Cheguei a dizer que ele seria o melhor livro que já havia lido, e agora, um tempo depois da leitura e com os ânimos mais amainados, vejo que não é exagero. O que se deve considerar, ainda, é que este é o segundo romance do autor e ele tinha apenas 34 anos quando o escreveu. Para mim, Robert A. Heinlein mais uma vez me surpreendeu, e me proporcionou os melhores momentos que tive com um livro em muito tempo!

E não por acaso esta resenha está sendo publicada hoje, numa terça-feira. No dia 7 de julho comemora-se o aniversário de nascimento do autor.

 


+de Robert A. Heinlein

Tropas Estelares


O Dia Depois de Amanhã, de Robert A. Heinlein (The Day After Tomorrow (também conhecido como “Sixth Column”), 1941 – Tradução de Maria Luísa Gonçalves dos Santos, 1984) – 169 páginas, ISBN 9788545200277, Editora Europa-América.

{A+++}

desafio2015

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3 comentários:

  1. Então, este livro faz tempo que está na minha lista de 'livros de ficção científica que preciso ler', mas vou esperar mais um pouco. Há rumores que a Editora Aleph irá relançar com uma nova roupagem e tal... Fácil saber porque estou esperando, rsrs.

    Amei a resenha, o livro é tudo que eu realmente espero.

    Estou lendo um do mesmo gênero, mas mais moderno, escrito recentemente, mas que também tem essas críticas claras à política. Eu amo isso!!!!

    Ah! Estou lendo Sombra do Paraíso e já te digo que irá amar!! O livro é a sua cara!!!

    Amei a resenha!!!!


    Bjksssss

    Lelê

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  2. Eu nunca tinha ouvido falar desse autor...mas ver esse sendo posto no mesmo patamar do Asimov e Arthur C. Clark mostra que não deve ser mesmo pouca coisa. Eu leio pouco FC e estou mesmo tentando mudar essa situação. Gostei muito da resenha porque parece uma história intrigante já que não é todo dia que ouço falar em fc se misturando a religião para solucionar um problema crítico rs

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  3. Apesar do entusiasmo da resenha e do livro ser obviamente uma pérola da ficção cientifica, um gênero que vem me atraindo cada vez mais, acho que vou passar... Não gosto de racismo de qualquer ordem, tenho amigos asiáticos... Sei que assusta o ocidente a disciplina e a capacidade de gestão e desenvolvimento tecnológico deles, mas me assusta perceber que assusta ao ponto de um autor projetar um futuro nos qual eles dominam o mundo de forma opressora...

    Para mim essa ideia tem quem "Q"de "quem disso usa disso cuida", os americanos são imperialistas e dominaram das formas que podem e sabem o mundo durante o século XX por isso tem medo de que façam com eles aquilo que eles fazem com o outros... Sem contar que essa desculpa de que os asiáticos não levam mulher em conta é bem esfarrapada e a ausência de outras etnias pode me irritar...

    As vezes um bom texto não vale o aborrecimento que vem com ele... Mas, como sou do tipo que muda de ideia nunca se sabe quando posso desistir dessas ideias e ler o livro mesmo assim!

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