17 de dezembro de 2012

No Meu Peito Não Cabem Pássaros [Resenha #092]

No Meu Peito Não Cabem PássarosSinopse: Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de Nova York a um rapaz misantropo que chega à Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo. Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar. Apesar de separados por milhares de quilômetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo gênio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles. Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, o livro é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens.

Existe, em alguma cultura, um deus para os livros? Não sei, mas se não me engano, e a Wikipédia não me deixa enganar, São Francisco de Sales é o padroeiro dos escritores, e São Jerónimo de Strídon o dos bibliotecários. Bom, fico com os dois, e agradeço: muito obrigado, muito obrigado e muito obrigado. Em um ano de muitas descobertas literárias, me deparei com Nuno Camarneiro.

Antes mesmo de começar a resenha em si já tenho a ciência de que não conseguirei falar do livro como se deve. Mas um caso típico de amor incondicional que nos impedem de falar sobre. Talvez eu tenha aqui o meu “Uma Aflição Imperial”. Talvez.

Em “No Meu Peto Não Cabem Pássaros”, livro de estreia do escritor português Nuno Camarneiro, e parte da coleção Novíssimos – um dos melhores lançamentos do ano, diga-se de passagem – acompanhamos Karl, Jorge e Fernando em dias aparentemente comuns de suas vidas. Fernando é um jovem que chega a Lisboa mas não suporta a cidade e os homens; Jorge é um garoto argentino aprendendo a duras penas que o ambiente escolar nem de perto é tão acolhedor quanto o que temos em casa; e Karl só mais um dos milhares de imigrantes que deixaram seu país em busca de um futuro melhor em Nova York.

Passado em 1910, acompanhamos em capítulos alternados o que se passa com cada um deles: a transição de Jorge para a escola; a chegada de Fernando à casa da Tia; e como Karl perde o emprego de lavador de janelas e se vê desesperado com um braço defeituoso após uma experiência que – para ele – fora mal sucedida.

Os capítulos são curtos, em média uma página, uma página  e meia e quase não possuem diálogos. Eu seria o primeiro a reclamar de longas descrições se o texto de Camarneiro não fosse tão agradável  e cheio de verdades que se aplicam a seus personagens como ele é. O narrador tem uma ciência tão grande da forma como cada um destes três homens interagem no mundo à sua volta, que me entreguei à narrativa e o acompanhei sem pestanejar. Ele, o narrador, é sábio e conhece os três personagens como poucos: suas motivações, seus desejos, suas dores. Ao ler o livro durante todo o tempo me ficou aquela sensação de desespero que advinha dos personagens, por serem tão pouco no mundo – e nada do que gostariam de ser. Não é um sentimento pungente e até acredito que seja diferente para cada leitor do livro, mas o fato de eles – os personagens – serem tão deslocados na sociedade causaram em mim uma certa dor, talvez por eu mesmo ter demorado a me encontrar.

E ainda temos o efeito de ler o livro compulsivamente graças aos capítulos alternados: fica sempre a curiosidade sobre o que vai acontecer, então você os consome com rapidez, e mal se apercebe disto.

Claro que em alguns momentos fiquei em dúvida, principalmente nos capítulos referentes à Jorge: por algum tempo não sabia se era realidade ou fantasia do menino, e o autor brinca deliciosamente com isso, jogando com seu personagem que permite a ele uma maior versatilidade criativa: um garoto que, imaginativo, colocava memórias em cada objeto da sala, com medo de que as suas próprias se extinguissem ou não fossem suficientes. E, após aprender a escrever, descobrira que, através da tinta que sai da caneta, poderia criar os mundos que bem entendesse.

Apesar de não ser de difícil compreensão, recomendaria o livro para as mesmas pessoas que recomendei Serena e O Começo do Adeus, acho que estão na faixa certa para ler sem problemas, e são bastante abertos para o que vão encontrar.

Ler “No Meu Peito Não Cabem Pássaros” me lembrou o mesmo sentimento de se ler uma poesia: o que você tira dele e o que ele lhe entrega é algo tão pessoal que te deixará pensando por um bom tempo. É o tipo de livro  que, mesmo curto, trás tanto dentro de si. É bem mais sobre pensar a respeito que falar sobre.

O melhor do ano? Provavelmente.

 

No Meu Peito Não Cabem Pássaros, de Nuno Camarneiro (2012) 192 páginas, ISBN 9788580446364 Editora LeYa.

{A+}

11 comentários:

  1. Se eu gostei tanto de O Começo do Adeus e ainda desejo intensamente Serena, este livro já está na minha lista, sem dúvidas. No geral, é muito, mas MUITO difícil eu curtir literatura portuguesa (minha família tem parte portuguesa e mesmo assim eu não consigo me interessar na cultura, só vejo o lado ruim da história deles), então eu sempre penso duas vezes antes de ler algum livro da "terrinha", mas desta vez, vou considerar.

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    1. Lu, eu tentei ler "Eurico, O Presbítero" uma vez e nao deic onta, então estava meio assim antes de começar a leitura do "No Meu Peito Não Cabem Pássaros", mas me dei bem. Camarneiro me surprendeu, com certeza foi das melhores leituras do ano.

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  2. Todo mundo tem um espaço literário no qual se sente mais a vontade, quase que em casa, o tipo de narrativa de Anne Tyler é a minha casa literária, é onde me sinto plena lendo... Então esse livro está na minha lista, já sei que vou ler e amar até a próxima vida... Simples assim...

    Luciano vc já leu algo de Milan Kundera?

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    1. Ah, também é um espaço que em agrada e me deixa à vontade, sempre me dou bem lendo algo nesta linha.

      Ainda não li Kundera, mas ele está na lista do que quero muito ler. É bom?

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    2. Eu adoro!!! Amo 99 vezes!!! Talvez você goste, segue esse linha mais psicológica!!!

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  3. Sou fã da Literatura Portuguesa! Esse vai entrar pra minha lista!O título já é uma coisa que conquista né? Pura poesia.

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    1. Aléxia, boa definição: pura poesia. Vale muito a pena ler.

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  4. Eu nunca ouvi falar desse livro, meu Deus!!! Nem li falar rsrs Mas, enfim, amei a resenha e gosto muito de histórias que alternam os personagens entre os capítulos, fiquei muito curiosa e vou até procurar mais resenhas pra saber mais rsrs Gostei e quero ler *_*

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    1. Daniele, é incrível o quanto podemos nos surpreender ;)

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  5. O livro tem tudo para me agradar a começar pelo fato de ter capitulos curtos, prefiro livros assim - a leitura se torna mais agradavel e mais rápida.
    Seguindo seu conselho vou ler o trio de livros \o/

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    1. Lucas a leitura é rápida - e, o melhor, nem por isso superficial. Este vale muito a pena ler mesmo, é um dos melhores livros do ano ;)

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