15 de julho de 2013

O Homem do Engano, de Chris Morgan Jones [Resenha #136]

O Homem do Engano

 

 

 

 

Sinopse: Pouco tempo depois do colapso da União Soviética, dois jovens ocidentais se mudam para Moscou, atraídos pelas oportunidades profissionais que se abrem com a perspectiva de redemocratização do país. Um deles é jornalista e logo se desilude ao observar, no dia a dia da nação formada a partir dos escombros do regime comunista, um vaivém de expectativas e frustrações que parece não ter fim. O outro, um advogado medíocre, deixa-se seduzir pela opulência em que vivem alguns dos antigos membros da nomenclatura soviética e põe-se a serviço de um deles, emprestando seu nome para camuflar um esquema de corrupção que está por trás do maior conglomerado privado do setor petrolífero russo.

A Rússia é um país fascinante. Mesmo hoje, quando faz de tudo para se distanciar da imagem de país fechado e misterioso que possuía desde os tempos dos czares, e até os anos de socialismo, há muito o que se pensar sobre ela – a pátria – e seu povo orgulhoso de suas origens. No mundo empresarial, despertam a curiosidade de investidores de todos os cantos do planeta as fortunas surgidas nas últimas décadas, os bilionários barões do petróleo, e o sentimento persistente de que tudo é diferente e segue sua própria lógica naquele país.

Em “O Homem do Engano”, livro de estreia do autor Chris Morgan Jones, conhecemos um pouco desse ambiente empresarial, através da figura de Lock, um advogado que vê no país uma chance de conseguir sucesso profissional, e acaba se tornando testa de ferro para um figurão do governo russo – chamado Malin – tendo em seu nome participações em empresas petrolíferas e de outras atividades ligadas ao petróleo que fazem dele um verdadeiro magnata, sem que, na realidade, ele nada possua: Lock é o famoso laranja, então empresta seu nome para outro e, com isso, fica com uma pequena porcentagem.

Em esquemas como esse o anonimato e a discrição são fundamentais, e esta é a função de Lock: juntar em uma teia intrincada de empresas, subsidiárias e fundos de investimentos tudo o que Malin possui, de forma que se consiga uma estrutura acionária tão complicada – e amparada em paraísos fiscais conhecidos por garantirem o anonimato de seus depositários – que seja praticamente impossível se conhecer o verdadeiro dono de todo aquele dinheiro, assim como inviabilizar as diversas transferências de valores entre eles.

Mas se existe uma certeza nos mundos dos negócios é a de que, em certo momento, você fará um inimigo. Malin tem o seu, Tourna, que decide denunciar seu esquema, contratando para tanto, Webster, um ex-jornalista que trabalha numa empresa particular de espionagem.

Num primeiro momento achei que Locke era um personagem um tanto distante, despreocupado, que não despertaria no leitor sentimentos muito profundos de cumplicidade: ele era bem sucedido, exibia uma bela mulher pelas praias de Mônaco, e era testa de ferro de um figurão russo. Nada muito promissor, ao menos até Tourna surgir e colocar seu mundo de pernas pro ar, fazendo-o questionar qual a verdadeira importância que ele, Locke, tinha para o esquema de Malin, e até onde era insubstituível.

Este Locke, sedento por escapar da enrascada que, mesmo sabendo que algum dia bateria à sua porta, não estava pronto para ela; que odeia advogados e a forma como lhe falam de modo superior; que teme seu chefe; que vê na Rússia uma prisão que está se fechando, com seus altos muros, ao seu redor – e que me foi bastante semelhante, na aflição, do sentimento que Górki relata em certo trecho de “Ganhando Meu Pão”: {“Às vezes, pensava: tenho que fugir! Mas era um inverno maldito, as tempestades de neve uivavam noite após noite, o vento remoinhava no sótão, os caibros estalavam, comprimidos pelo frio: fugir para onde? – Página 99}; este Locke me cativou e me fez torcer por ele, para que se safasse, e, de quebra, reconquistasse sua família, por quem ele se percebe – na hora do aperto, mas não, quem sabe, tarde demais – ainda apaixonado.

E até aqui não era possível torcer ao mesmo tempo por Locke, querendo se salvar; e por Webster, buscando por elementos que satisfizessem o desejo de Tourna, seu cliente, e que, por consequência complicariam ainda mais a vida de Locke.

Webster é um personagem mais complexo, com uma história mal resolvida na Rússia que o atormenta e o faz sentir culpado. É esta história, acredito, que faz com que, conforme se avança no livro, ele ganhe uma consciência que faz dele um sujeito bem vindo, e, em certo ponto, mesmo torcendo pelo atormentado Locke, desejei a aproximação dos dois. É como se diz: se você tem um inimigo e, em comum com ele, um ainda maior, unam suas forças.

O livro é narrado em terceira pessoa, com capítulos que se alternam entre Locke e Webster. A leitura é rápida, e, por mais que possa o enredo ter elementos que aparentam serem complicados – empresas offshore, fundos de investimento, participação acionária, mercado de petróleo, espionagem – o autor conduz tudo de uma forma tão equilibrada que o leitor, mesmo o mais leigo no assunto, vai absorvendo-os naturalmente.

Ele é daqueles livros pelo qual o leitor não passa intocado. É impossível não torcer e, com o narrador dando o tom do clima, segue-se lendo esperando ansiosamente o que está por vir… até culminar no clímax, que é inesperado, me deixou nervoso, indignado mesmo. E que bom que foi assim.

 

O Homem do Engano, de Chris Morgan Jones (An Agent of Deceit Tradução de Alexandre Hubner, 2013).  344 páginas, ISBN 9788565530309  Editora Paralela. [Comprar no Submarino]

{A-}

13 comentários:

  1. Oi..
    É uma boa história, foge um pouco dos romances que estou acostumada a ler. Mas também gosto de histórias assim.
    Encarava uma leitura.

    beijos
    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

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    1. Leticia, o livro é muito bem estruturado, o autor mantém tudo bem amarrado. Vale ler.

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  2. A Rússia realmente desperta muito minha curiosidade. Eu não tinha reparado nesse livro ainda, mas me pareceu interessante, até porque, histórias pós-URSS sempre rendem bons mistérios. Tem tanta coisa que não sabemos ainda, ou sabemos mas não acreditamos que seja possível... Achei a proposta do livro ousada, curti!

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    1. A Rússia é um mistério! E a transição pela qual passou só aumenta este clima, fazendo com que imaginemos o que se passa por lá. O livro é ousado mesmo, trata de temas que tinha tudo para serem complicados de se falar sobre, mas o autor soube levar a história muito bem.

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  3. Rússia é o segundo país que tenho vontade de conhecer, só perde para a Inglaterra. Livros que envolve economia e politica para mim sempre é um prato cheio. Ainda não conhecia esse livro, fiquei bem intrigado.

    Abraços!

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    1. Lucas, então acho que você se sentiria em casa aqui ;)

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  4. Acho a Rússia muito interessante, e mesmo com Putin lá, quero passar um tempinho no país um dia. Na verdade, antigos países comunistas me fascinam muito, porque realmente me interesso como eles fizeram a transição. Enfim, adoro o fato de que você lê livros tão diferentes e pouco conhecidos e resenha aqui :)

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  5. Oieee!! Boa noite, eu tenho um blog e gostaria mto que vc me seguisse.Estou seguindo o seu!!!AMEI SEU BLOG e a postagem,parabéns!!
    meu blog é http://hopefullyy.blogspot.com.br/
    Aaaa e aproveito para comunicar que o livro ELAS SÃO GÊMEAS já está a venda na editora Baraúna,na Saraiva ,LIVRARIA DA TRAVESSA ,com uma promoção especial no site da editora.Aproveite!!!
    O link do livro no skoob tb caso tenha :
    http://www.skoob.com.br/livro/312875

    Obrigada pela atenção .bjs

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  6. Faz tempo que não leio um livro assim, nesse tom, nessa pegada tensa. Acho que estou em uma faze literária existencialista misturada com romance do século XIX e uma pitada de autoras irlandesas ilarias para amenizar a coisa senão não consigo levantar da cama rsrsr...

    Fiquei com vontade de ler algo como "O homem do engano" ou mesmo esse livro.

    Como sempre e para não variar, adorei a resenha Luciano e as ideias com as quais você costurou a narrativa do enredo.

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  7. Oi, Luciano!
    Interessante a afirmativa de que no mundo dos negócios em certo momento faremos um inimigo. Talvez o mais importante seja saber quem é o nosso inimigo, pois no mundo dos negócios você tem que se precaver, mesmo imaginando que não tenha inimigos, afinal, um dia eles aparecem!
    Conheço Chris Morgan como colunista no The Huffington Post" e como o empreendedor que foi em uma grande empresa de inteligência da Rússia. Bom que a sua própria vida serviu de laboratório para os livros :) Fiquei curiosa com o livro!
    Boa semana!!
    Beijus,

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  8. Oi Luciano!
    Não conhecia esse livro! Apesar de ser totalmente diferente do que costumo ler, parece ter uma história muito interessante. Esses bastidores do petróleo são complicados...

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  9. OIe,
    Não conhecia esse livro e suas palavras me fizeram lembrar de John Grisham, pois li O Advogado dele e lembro de torcer muito pelo personagem, agora fiquei aqui pensando que esse livro que leu deve ser bem tramado, já que você ficou ao lado do laranja em vez do jornalista. Fiquei curiosa, espero um dia poder conferir.

    Beijokas elis!!!

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  10. Olá!!!, Deus te abençoe, Amigas estou convidando você para um concurso no meu blog e da Loja TPM de ofertas, amiga deve ser bom, mais amei o seu blog sucesso, já estou te seguindo, Aguardando Retribuição.
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/

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Oscar