21 de outubro de 2013

Passarinha, de Kathryn Erskine [Resenha #148]

capa


Sinopse: No mundo de Caitlin tudo é preto ou branco. As coisas são boas ou más. Qualquer coisa no meio do caminho é confuso. Essa é a máxima que o irmão mais velho de Caitlin sempre repetiu. Mas agora Devon está morto e o pai não está ajudando em nada. Caitlin quer acabar com isso, mas como uma menina de onze anos de idade, com síndrome de Asperger ela não sabe como. Quando ela lê a definição de encerramento ela percebe que é o que ela precisa. Em sua busca por ele, Caitlin descobre que nem tudo é preto ou branco, o mundo está cheio de cores, confuso e bonito.


Por mais que tente iniciar uma leitura com a menor expectativa possível, a fim de quê não me decepcione com algo que imaginei ser grande ou que me surpreenda com um título pelo qual não dava muito, alguns livros já vem com uma carga tão grande que é impossível não ficar ansioso para lê-lo.

Este foi o caso de Passarinha, da autora Kathryn Erskine e que foi lançado recentemente pela Editora Valentina. Já havia lido algumas resenhas bastante positivas sobre o livro, feitas por blogueiros que o leram ainda no original, em inglês, então quando o tive em mãos as expectativas já eram estratosféricas. E, bom, todas elas se confirmaram.

Em Passarinha conhecemos Caitlin, uma menina de onze anos diagnosticada como portadora da Síndrome de Asperger, que, segundo a Wikipedia – e basicamente – faz parte do espectro do autismo mas se diferencia dele por o portador conseguir se comunicar com mais facilidade. Como parte de suas limitações, diretamente advindas da síndrome, estão a dificuldade de relacionamento, comunicação, e de compreender o que lhe é dito, e de peculiaridades na fala e linguagem – na qual reside a grandeza quase poética da narrativa do livro. Somando-se a isso, a família de Caitlin sofrera sucessivas perdas importantes, primeiro a mãe, que falecera de câncer, e, depois, o irmão mais velho, Devon, que fora assassinado por um atirador em sua escola.

A morte do irmão tem um peso tremendo na narrativa por ser ele o norte de Caitlin, aquele que decifra para ela o mundo, que lhe diz como agir, o que dizer, e o que se espera que se faça para que se tenha uma vida “normal” e evitar ao máximo os olhares e gritos que tanto a incomodam. Sem Devon para lhe traduzir as emoções, os significados, ela se sente perdida, e se apega a um dicionário, pois ali também encontra uma voz que lhe fala a respeito das coisas.

O problema, aqui, é que ela não consegue compreender os sentidos de, por exemplo, expressões idiomáticas e sentidos figurados tendendo a entender tudo literalmente; assim como faz as mais diversas associações que para ela são lógicas, mas que para o restante das pessoas não faz sentido algum – quase como se uma pessoa com pouco conhecimento de uma língua estrangeira tentasse traduzir um livro. Dali não sairia boa coisa – Se dizem para ela, por exemplo, que uma pessoa que faleceu foi para o céu, ela olha para o céu em busca da pessoa; ou, se vai chover canivetes, ela fica aterrorizada pensando no que faria se estivesse, no momento da chuva, à céu aberto (e aqui me pergunto que imagem ela formaria da expressão “à céu aberto”!).

Não gosto de gente muito expansiva. Nem efuSIva. Nem extroverTIda. Nem greGÁria. Nem qualquer uma daquelas palavras que querem dizer que vão encher meus ouvidos de barulho e me machucar e um monte de rostos e braços vão invadir meu Espaço Pessoal e um monte de vozes falando sem parar vão sugar o ar de dentro dos lugares até eu me sentir como se fosse sufocar.

– página 51

Da mesma forma, ela constrói suas associações: como não gosta do recreio, onde se sente exposta a diversos riscos aos quais não pode se antecipar, e, portanto, tem menos chances de evitar, como um esbarrão, um aluno gritando e etc.; ela acaba relacionando a palavra a uma coisa ruim. Assim, quando se sente desconfortável por algum motivo – e em qualquer lugar – ela utiliza a expressão “está me dando uma sensação de recreio no estômago”.

É.  Ela é a DIRETORA. Captou O Sentido? Ela gosta de dirigir e o meu game favorito é Mario Kart.

– página 51

Não quero insistir muito nesse ponto mas existe outra passagem muito interessante. Na página 80, Caitlin fala sobre seu filme preferido – que o é justamente por ser o preferido do irmão, Devon – “To Kill A Mockingbird”, que o tradutor transformou em “Matar Passarinho”. Devon sempre relacionava sua família com os personagens do filme, dois irmãos que são criados pelo pai: ele era Jem, ela a menina, Scout. No filme, a família tinha uma empregada que cuidava dos afazeres domésticos e, à noite, voltava para sua casa, para cuidar de seus filhos. Relacionando sua família com a do filme, Caitlin chegou à conclusão, de que, talvez, o que tivera acontecido com sua mãe fora isso: saíra para cuidar de outros filhos e não conseguira mais retornar; o que, sabemos, não foi o que aconteceu.

A dinâmica da narrativa se desenvolve mesmo quando ela tem contato com a palavra “desfecho”. Pesquisando seu significado, ela descobre que é a maneira como conseguirá “dar um fim” ao período que está vivendo, e que, mesmo com suas limitações, e com a ajuda de sua orientadora escolar – uma personagem que merece um abraço – entende ser difícil, como quando percebe seu pai chorar no banheiro. Ela sabe que as coisas tem que prosseguir e, de alguma maneira encontrar novamente seu rumo. É sua busca por esse caminho que acompanhamos.

Eu gosto das coisas em preto e branco. Preto e branco é mais fácil de entender. Cor demais confunde a cabeça da gente.

– página 81

Cailtin tem uma linguagem e um modo de ver as coisas bastante peculiar, moldados por instruções que ela vai recebendo de sua família, em especial de Devon, e  de sua orientadora, e que ela resume em pequenos comandos – que para ela demandam grandes esforços – como “Captar O Sentido”, que seria buscar compreender o que foi dito, tentando ignorar o sentido literal; “Olhar Para A Pessoa”, manter contato visual, olhar nos olhos; e, “Lembrar da Sua Educação”, o básico, responder quando questionada, dar bom dia, agradecer e etc. Ao longo do texto ela vai trabalhando-os, e é gratificante ver sua evolução.

Acredito que nunca estive tão grato por um livro ser narrado em primeira pessoa. Ter a visão de Caitlin sobre os fatos é a peça fundamental do livro, e notar o modo como ela enxerga o mundo e com ele se relaciona – assim como ir descobrindo aos poucos as diversas conexões e significados do que ela diz e pensa – é uma experiência que os leitores não esquecerão. Bom, ao menos não eu.

Tudo é tão bem estruturado, redondo, sem farpas, que não há como não se emocionar. Fica, facilmente, entre os melhores do ano.

Livros não são como pessoas. Livros são seguros.

– página 42

 

Passarinha, de Kathryn Erskine (Mockingbird, 2010 Tradução de Heloísa Leal, 2013) – 224 páginas, ISBN 9788565859134, Editora Valentina.

{A+}

18 comentários:

  1. Eu estou esperando por Passarinha, foi uma acertada pedi a Irene já vejo que vou amar! Na verdade eu pedi ele por ter que lidar com crianças muito diferentes e me sentir despreparada para enfrentar um autista sabe... O TOC de alguns amigos adultos já desconcerta minha necessidade inconveniente de tocar nas pessoas e busca, como diz a Aleska, a intimidade de que gosto imagina uma criança autista.... Mas vejo que a jornada dessa criança vai me trazer mais do que eu esperava....

    E quer saber, eu concordo com ela "Livros não são como pessoas. Livros são seguros.", aliás quem de nós que nos refugiamos nos "papeis pintados com tinta" para respirar não concorda? A única coisa que os livros não fazem é abraçar, cheirar e dizer que ama... pessoas são tão inseguras, mas...

    Adorei a resenha Luciano, uma das melhores partes da minha segunda com toda certeza! Cheros :p

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    1. Jaci eu acho que você vai gostar do livro, ele é bastante terno, tocante, e acompanhar Caitlin durante o livro é uma experiência única. Já fico esperando a resenha.

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    2. No final esse foi um livro fácil de ler e difícil de resenhar! Me apaixonei pela Caitlin, pela sua família, amigos e derivativos... E, no meu pós-leitura concordo com você Luciano, vai lindamente para a lista dos "melhores do ano".

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  2. Esse parece o meu tipo de livro. Estou convencida sobre a leitura e vou procurar o título mais pra frente, estou carecendo de romances mais dramáticos e humanos, sem as firulas de mundos fantasiosos.

    Abraços!

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    1. Lu, este é bastante dramático, e a autora sabe dosar bem os acontecimentos, e não descamba em momento algum para o dramalhão. Vale ler ;)

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  3. Quero muito esse livro, pois ele me parece muito profundo e emocionante, até mesmo porque a protagonista ser uma criança e possuir uma sindrome, o que é o bastante para saber como a autora irá abordar a história da personagem, e isso chama minha atenção, além da ótima capa criada pela Valentina. O mais interessante em sua resenha é você comentar sobre a evolução da protagonista, e eu gosto muito disso nos livros: quando um personagem amadurece durante a narrativa. Estou ansioso :D

    Abraços, Joshua Guimarães
    Blog Pensamentos do Joshua - pensamentosdojoshua.blogspot.com

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    1. Joshua, boa parte do livro é sobre Caitlin "encontrar o desfecho" e, inevitavelmente, ela tem de crescer, de se abrir para coisas e situações que, antes, ela não estaria disposta a enfrentar.

      Eu gostei muito do livro, espero que goste também ;)

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  4. livro muito bom beijos
    @livroazuis
    livro-azul.blogspot.com.br

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  5. Muito, muito interessante, Luciano!!! Você leu "O estranho caso do cachorro morto"? Não tem resenha... bom. O roteiro é bem similar, na verdade, inclusive a linguagem e todo o resto... estou um pouco triste de ser parecido até no fato da Caitlin ser criada apenas pelo pai, como o Christopher do "Estranho Caso" (ambos os protagonistas começam com C!)... e ter bicho no título... Apesar de tudo, acho que deve ser muito bom, mesmo, porque a gente realmente se coloca no lugar das crianças com Asperger e entende o mundo delas e toda a forma de sentir e pensar, que é peculiar e interessantíssima.

    Mas... hummmm... senti um cheirinho de inspiração por demais da conta... =( Mesmo assim, vou ler.

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  6. Oi Luciano,
    Obrigado pela maravilhosa visita lá no blog. E gostei do enredo da sua leitura, fiquei curiosa, afinal se você ficou na expectativa e a obra atendeu a todas, deve ser maravilhosa. Como sempre sua resenha está show de bola.
    Beijokas Elis - http://amagiareal.blogspot.com.br/

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  7. Acho que ainda não li um comentário negativo dessa trama!
    Estou curiosíssima para conhecer essa trama.
    Também tento controlar as expectativas, mas algumas vezes elas nos "vencem", rsrs

    http://meuhobbyliterario.blogspot.com.br/

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  8. Olha eu aqui quase chorando de novo!!!
    Eu chorei qdo li o livro, chorei quando fui tentar escrever a resenha, e quase chorei aqui lendo a sua!!!
    Acho que nunca um livro conseguiu me emocionar tanto e por tanto tempo pós leitura.
    Amei a resenha tanto quanto o livro!! De verdade!!

    Bjkas

    Lelê Tapias
    http://topensandoemler.blogspot.com.br

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  9. Nossa esse livro parece ser muito legal (apesar de parecer muito triste), gosto de livros assim, que abordam temáticas que não muito faladas na sociedade (como a doença da personagem).

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  10. Adorei a abordagem do livro, diferente de tudo que já li.

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  11. Mesmo sua resenha sendo positiva e tudo mais, não acho que eu gostaria do livro. Vou deixar passar por não ter me chamado atenção o suficiente e não ser o meu gênero.

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Oscar