3 de abril de 2014

Death in Paradise – Primeira e Segunda Temporadas

Death in Paradise

Apesar de gostar muito de romance policial, no campo das séries dificilmente elas se tornam minhas favoritas. No passado gostei muito de “Without a Trace” e “Cold Case”, mas minha fixação por elas foi esmaecendo com o tempo, e hoje sinto pouca ou nenhuma vontade de rever algum episódio, fato semelhante com o que ocorre com minha relação com CSI e seus derivados.

Para que me cative, séries policiais tem de ter um algo a mais, como um detetive neurótico em “Monk” ou um xerife durão em “Longmire” – espero falar desta última em breve – caso contrário fica pra mim muito difícil entender o que esta tem de bom em relação àquela, e, assim, vai tudo para o mesmo balaio. “Death in Paradise” tem seu diferencial, e, por isso, gosto tanto dela.

Death in Paradise

Criada por Robert Thorogood e originalmente exibida pela BBC, Death in Paradise teve sua ideia originada de uma situação real, e nos apresenta o detetive britânico Richard Poole – interpretado pelo excelente Ben Miller – que é enviado para ser inspetor chefe na ilha de Saint-Marie, no Caribe, que é uma espécie de protetorado britânico ou coisa que o valha. O problema é que Poole é um  britânico nato: toma chá e bendiz o clima úmido de seu país, então encontra-se incrivelmente deslocado ao ter de se mudar para um lugar de clima tropical, odiando a areia e o sol sempre presentes.

Outro ponto que o desagrada é o método de trabalho da delegacia um tanto disfuncional que ele assume em Saint-Marie, tendo como auxiliares Dwayne, oficial desinibido e mulherengo; e Fidel, um jovem com ambições e que faz de tudo para que exerça suas funções à contento. Até que chega Camile Bordey, interpretada pela francesa Sara Martins, e que logo se torna seu braço direito e companhia constante nas investigações.

Death in Paradise

A fim de realizar bem seu trabalho, Richard se esforça pela adaptação mas nos fica muito claro o quanto isso lhe custa e como é um esforço quase vão. Tudo é muito diferente para ele, e isso começa pelo clima, mas não se resume a ele, seguindo pelas diferenças culturais e sociais entranhadas na ilha, e que são discutidas em diversos episódios, como o histórico de escravidão na produção açucareira, e os rituais de vudu.

Richard tem um método de investigação bastante detalhista, conseguindo capturar mínimos detalhes durante os episódios que parecem escapar de seus auxiliares e do telespectador, e que ele mesmo só consegue conectá-los com outros acontecimentos nos últimos minutos, chegando assim à solução do crime. E neste ponto o detetive usa para desvendar os crimes algo que me lembra muito Poirot, o maior detetive da literatura: reúne os envolvidos em um local e ali desenvolve a narrativa do crime, que ele e sua equipe levantaram, e explica o porque e como cada um dos presentes é culpado ou inocente.

Neste ponto acredito que a série tenha um de seus maiores problemas: não adianta os roteiristas nos brindarem com um final surpreendente se o telespectador não conseguiu chegar à mesma conclusão e fica perdido pelo caminho. Muitas das sacadas que Richard tem no último minuto soam forçadas ou são frutos de informações às quais o telespectador não tem acesso – um relatório ou resultado de exame de última hora, uma recordação, ou coisa do tipo – e, partindo do princípio que, nas séries policiais como um todo, o telespectador tem sempre o ponto de vista da investigação, essa tem de convencê-lo, ou parecerá forçado.

Death in Paradise

Os personagens são bem construídos e gosto como eles se esforçam para deixar Richard à vontade, e não o fazem por ser ele o chefe, mas por ser esta sua natureza. Eles são boas pessoas, e profissionais competentes, e o fato de cometerem alguns deslizes só o fazem mais humanos. Como o é Richard. Ele é tímido, fechado, fala com poucos gestos e abrindo pouco a boca. Mas por todas as suas disfuncionalidades é que gosto tanto dele, pois nada disso o faz frágil, na verdade, por trás do homem fechado há uma mente sagaz, dedutiva, perspicaz, que consegue como poucos ligar pontos e formar cenários. Na tv, é dos melhores detetives.

A série tem uma tênue veia cômica que é bem dosada e faz bem para a narrativa, tira o peso de algumas passagens sem as banalizar, como se entendesse que o que aconteceu é importante, mas que a vida não para por ali. E, na segunda temporada, o foco da narrativa é o exame de Fidel para se tornar sargento, e, numa medida bem maior, a empatia entre Richard e Camile, que vai crescendo e beira um flerte um tanto desencontrado, mas pelo qual todo mundo torce para que continue.

Em seu episódio de estreia, a série tem uma reviravolta interessante, e, no final da segunda, nos deixa com o coração na mão. Vale cada episódio – e são poucos, oito em cada temporada.

Não vou falar muito sobre a terceira temporada por dois motivos: ela ainda está em exibição; e, por fim, conseguiu me irritar profundamente com menos de dez minutos de exibição do primeiro episódio. Mas eu tenho que comentar uma decisão tomada por atores e produção. Seguem muitos spoilers abaixo, selecionem para ler por sua conta e risco.

SPOILER. SELECIONE A PARTIR DAQUI >> Demorei a assistir à segunda temporada, fiz o download dos episódios mas no momento tinha outras coisas pra fazer – como assistir as péssimas sexta e sétima temporadas de “Supernatural” – então quando assisti ao último episódio já sabia que o autor, Ben Miller, que interpreta o protagonista, não voltaria para a terceira temporada.

Não sei o que acontece com os atores ingleses, mas eles parecem não gostar de ficar presos no mesmo trabalho por muito tempo, e isso também já vitimou “Downton Abbey”, que perdeu importantes personagens por os atores estarem “em busca de novos horizontes profissionais”, o que me faz quase desejar que eles fracassem miseravelmente em suas novas empreitadas. Quase.

Pois é, Ben Miller levantou a mão e pediu pra sair.

Mas, no último episódio da segunda temporada, que assisti com uma tristeza imensa por acreditar que seria o último em que veria o Inspetor Richard em ação, ao final do episódio, ele é chamado à Londres por seus superiores, então ele parte, e seus colegas, Camile, Dwayne e Fidel, ficam em Saint-Marie imaginando se ele retornará. Eu também, e a cada minuto minha ansiedade aumentava, até que ele surge, de volta. Não os abandonou, está de volta ao trabalho. Ótimo, eu pensei, as notícias de que Ben Miller queria sair podem não ser verdadeiras, ou, quem sabe, entrou em acordo com os produtores. O importante, para mim, é que a terceira temporada estava salva.

E como me enganei, e fui surpreendido de uma forma terrível. Com menos de dez minutos de exibição do primeiro episódio da terceira temporada, o Inspetor Richard Poole é assassinado.

Eu fico chocado com a decisão de matar um personagem que era figura central na série apenas para poderem inserir na narrativa um outro alguém – um sujeito sem carisma caricato ao extremo – como se nos passasse um recado: não nos peçam por Richard Poole, ele está morto!

É muita ingratidão, é muita preguiça em lidar com a sombra de alguém em um roteiro, e, principalmente, é muita injustiça com alguém tão brilhante acabar morto covardemente por – alertas de cliché acesos e piscando – um picador de gelo.

Há todo um buraco causado pela morte repentina, mas o principal, é Camile, que vinha nutrindo certo carinho por Richard. Talvez os produtores achem que é mais fácil lidar com o assunto – que certamente teria um tom mais assertivo nesta temporada – com Richard morto; já que não se fala mal dos mortos, e, se ele tivesse ficado em Londres por vontade própria, seria o culpado por ferir o coração da moça.

Mas o fato é que parei com a série. Não dá. Só George Martin pode matar assim << ATÉ AQUI

A série é uma boa pedida para quem curte narrativas policiais, e, como plus, ainda nos oferece o clima caribenho, com cenários paradisíacos e uma trilha sonora à caráter. Recomendo fortemente as duas primeiras temporadas.

Death in Paradise (Death in Paradise – UK, Season 1: 2011/12, Season 2: 2013) Criada por Robert Thorogood. Com Ben Miller, Sara Martins, Danny John-Julles, Gary Carr. BBC Drama Group. Créditos completos aqui.

Primeira Temporada { B }
Segunda Temporada {B+}

14 comentários:

  1. Tbm tenho o msm problema, aí acabo não acompanhando mto essas séries, ou desisto de vez. Não conhecia essa e apesar dos problemas citados, acho que vou dar uma chance e assistir a pelo menos 1 epi e ver como é.

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    1. Pois é, não dá para deixar o telespectador em suspenso desse jeito durante a narrativa, fica difícil se sentir convencido do que aconteceu desta forma. Mas vale a pena assistir ;)

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  2. Eu nunca tinha ouvido falar dessa série, mas fiquei curiosa. Essa fórmula do apanhado de informações e a solução final é bastante contraditória, e inclusive, utilizada no House, por exemplo. O que me irrita é que o principal de tudo, eles não comentam, então o telespectador não tem acesso ao total de informações que resolveriam o caso. É claro que mantém a tensão, mas não é o que eu mais gosto de assistir. Isso em parte também é o que me irrita na narrativa de Agatha Christie. Sherlock Holmes é o maior detetive hahahaha (não pude deixar passar).

    Abraços!

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    1. Lu, vale a pena assistir! Eu me incomodo com essa artimanha para causar surpresa no telespectador, acho que funciona com muito poucas pessoas..... e é verdade, isso também acontecia no House - tenho que voltar a assistir.

      Bom, eu sou #teampoirot rsrsrs

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  3. Eu não sou fã de série policiais, mas eu amoooo o "Monk"! Acho que no fim eu sou fã de séries que me fazem ri e que tenha sarcasmo no meio do caminho.

    Mas mesmo assim li e gostei do post.

    Cheros, Luciano, sorte para você com suas séries.

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    1. Também gosto de Monk!, mas acho que a série desgastou muito rápido, o que é uma pena..... fico feliz que tenha gostado ;)

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  4. Oi, Luciano!
    Eu não sou de acompanhar as séries. Na maioria das vezes fico na retaguarda ouvindo o que comentam para me decidir se vou assistir ou não. Daí assisto tudo de uma só vez! Já anotei o título da série que me apresentou, pois ainda não tinha lido sobre ela e vou procurar.
    Bacana você comentar as séries. Ultimamente estou assistindo uma que foge completamente das atribuições que considero, simplesmente por causa da estrutura não repetitiva. Mas sei de antemão que não faz o seu gênero! :D
    Beijus,

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