21 de abril de 2014

O Menino dos Fantoches de Varsóvia, de Eva Weaver [Resenha #168]

O Menino dos Fantoches de Varsóvia - tEXTO


Sinopse: Mesmo diante de uma vida extremamente difícil, há esperança. E às vezes essa esperança vem na forma de um garotinho, armado com uma trupe de marionetes – um príncipe, uma menina, um bobo da corte, um crocodilo... O avô de Mika morreu no gueto de Varsóvia, e o menino herdou não apenas o seu grande casaco, mas também um tesouro cheio de segredos. Em um bolso meio escondido, ele encontra uma cabeça de papel machê, um retalho... o príncipe. E um teatro de marionetes seria uma maneira incrível de alegrar o primo que acabou de perder o pai, o menininho que está doente, os vizinhos que moram em um quartinho apertado. Logo o gueto inteiro só fala do mestre das marionetes – até chegar o dia em que Mika é parado por um oficial alemão e empurrado para uma vida obscura. Esta é uma história sobre sobrevivência. Uma jornada épica, que atravessa continentes e gerações, de Varsóvia à Sibéria, e duas vidas que se entrelaçam em meio ao caos da guerra. Porque mesmo em tempo de guerra existe esperança.


Existe um tema sobre o qual leio tudo quanto me chegue em mãos, e que sempre rende assunto para livros diversos: a Segunda Guerra Mundial. O que aconteceu nela foi algo tão amplo, inacreditável, monstruoso e confuso que desperta em mim uma curiosidade que acho difícil será desfeita. Vez ou outra me pego pensando no ocorrido – e no pouco que sei, dadas as dimensões continentais do conflito, e isso tanto territoriais quanto ideológicas – e questiono as razões que levaram um país inteiro a embarcar em semelhante projeto. Mas vamos ao livro.

Em “O Menino dos Fantoches de Varsóvia”, livro de estreia da autora Eva Weaver, conhecemos Mika, um menino judeu que vive em Varsóvia com a mãe e o avô, respeitado professor universitário. Eles acompanham as notícias da guerra e a evolução das políticas antissemitas levadas à cabo pelos nazistas, sempre de forma gradual, afim de que, creio, não despertasse nos judeus uma necessidade de reagirem e tomarem uma atitude. Assim, tinham de usar uma insígnia que os identificasse, depois eram proibidos de andar nas calçadas, de frequentar determinados estabelecimentos, de frequentar escolas públicas, e etc.

O negócio é que, aos poucos, os judeus tiveram seus direitos cerceados, até que se veem obrigados a deixarem suas casas para viverem amontoados como animais no gueto de Varsóvia, que viria a se tornar conhecido foco de resistência à ocupação nazista. Mas vamos por partes.

Se durante períodos de guerra há grandes problemas de abastecimento, com os cidadãos recebendo apenas rações diárias necessárias para a subsistência, imaginem o quanto recebiam os judeus, que já estavam nos planos nazistas como uma raça a ser exterminada. Eles sofrem com a fome, as incertezas, a brutalidade sem razão aparente dos soldados e, não demora muito, também com os focos de doenças, como a tuberculose.

É nesse meio que a autora introduz seu protagonista, um menino de doze anos, Mika, que herda do avô um casaco enorme, repleto de bolsos internos, muitos deles secretos, contendo fantoches. Aqui começa a história.

Eu até entendo que, em meio a todo aquele desespero, um teatro de fantoches seja fonte de alegria, uma válvula de escape que, nem que seja por poucos minutos, façam com que as pessoas que o assista naquela situação se permitam esquecer de sua realidade. Também entendo que, para Mika e a prima, que o ajuda na criação de roteiros e na manipulação dos bonecos, é igualmente prazeroso e recompensador – tanto psicologicamente quanto no sentido prático, como quando começam a ganhar alimentos como pagamento por algumas apresentações – e que cada sorriso que escutam do lado de lá do palco improvisado faz com que valha a pena todas as provações pelas quais passam para conseguir material para a confecção de personagens, as incertezas de se caminhar pelas ruas superpopulosas do gueto, onde a qualquer momento podem dar de cara com uma tropa nazista. Eu entendo.

Mas não me convenci. Tudo bem que Mika é um bom garoto, responsável, e que tem uma satisfação sincera ao se apresentar para as crianças do orfanato e do hospital, mas eu não consegui acreditar nele como um personagem possível. Mas, Luciano, vocês me dizem, é um livro de ficção. Eu sei, respondo, mas quem inventou de ambientar a estória em um dos períodos mais marcantes e estudados da história da humanidade foi a Dona Eva Weaver, não eu.

E neste ponto ela falha. Um garoto, envolto em casaco enorme, em meio a degradação sempre constante do gueto, que encara uma patrulha nazista para salvar uma velha senhora, utilizando um fantoche nas mãos é demais para mim, assim como a declaração do personagem de que “o personagem ganhou vida própria e agiu por si”. É o que sempre dizem os titereiros.

Ela até marca uns pontos nas descrições, ao enumerar horrores e sentimentos, mas peca no andamento da narrativa.

Agora, em um sentido eu tenho que aplaudir a autora. Não é spoiler, todo mundo sabe que a Rússia, quando bem quis, cruzou o rio, entrou numa Varsóvia destruída e fez algumas centenas de nazistas prisioneiros. A autora ganha pontos ao inverter a situação: levados para a Sibéria, os nazistas reclamam de sua atual situação, de que não são animais para viverem amontoados, forçados a trabalhar feito escravos e mal alimentados, até que um oficial com um pouco mais de consciência alega que aquilo fora o mesmo que, por mais de quatro anos, eles fizeram aos judeus. Mas logo corre um outro alguém dizer que “só obedeceram ordens”. E fica nisso.

Eu acho que a autora escolheu um tema complicado para uma estreia. Por experiência própria, é complicado se inserir crianças em narrativas sobre a Segunda Guerra e fazer com que elas sejam convincentes. Eu não me convenci com o Mika, menino dos fantoches, assim como não me convenci com o teletubbie menino do pijama listrado. É preciso muita fodacidade (acho que inventei, mas não achei palavra melhor) para fazer isso e ser convincente. Leon Uris, por exemplo, tem personagens infantis extremamente marcantes em seu clássico “Exodus”. Mas, Uris é Uris.

Fica a recomendação da leitura para quem tem interesse pelo assunto; assim como para quem gostou do “O Menino do Pijama Listrado”. Se você se encaixa em uma das duas categorias, pode se dar bem com o livro.

 


+ sobre a 2ª Guerra Mundial

O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne
HHhH, de Laurent Binet


 

O Menino dos Fantoches de Varsóvia, de Eva Weaver (The Puppet Boy of Warsaw, 2013 Tradução de Ivar Panazzolo Junior, 2014) – 400 páginas, ISBN 9788581634173, Editora Novo Conceito. [Comprar no Submarino]

{B-}

19 comentários:

  1. Poxa, eu esperava tanto deste livro :(
    Apesar de que eu curti O Menino do Pijama listrado. Sei lá, achei fofo no meio das atrocidades.
    A diferença é que este tem 400 páginas, enquanto o outro é super curtinho. Segurar esse tanto de páginas, tem que ser bom...

    Vou ler, depois te conto o que achei ;)

    Bjkas

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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    1. Lele, eu também, ele tem um projeto gráfico que chama a atenção, mas acho que o problema seja eu. Gosto do tema 2ª Guerra e acho que estou tendendo a ser mais rigoroso com o que leio sobre. Se você gostou do "Menino do Pijama" tem chances de gostar ;)

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  2. Eu te entendo. Crianças morriam demais nos guetos, nos campos de concentração... =(

    Realmente, é difícil fechar o olho crítico quando se conhece todos os horrores.

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    1. Né, acho que fica difícil mesclar temas mais fortes com momentos mais "ternos". Não que eles não existissem, sabe-se lá, mas tem que ser um narrador muito competente para tanto.

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  3. Eu concordo que a temática exige muito do autor, e eu não espero menos do que uma obra maravilhosa, porque a Segunda Guerra é um assunto muito sério para ser usado de forma leviana. PORÉM, pela sua resenha, eu sinto que esse livro não se compare a O Menino do Pijama Listrado. Eu acho a obra de John Boyne maravilhosa e completa, e tive a impressão que Eva Weaver passou longe. Mas vai de cada um, eu amei Boyne mas não sinto vontade de ler Weaver.

    Abraços!

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    1. Pois é, acho que é um passo largo demais para uma estreia, acho que ela teria de testar outros terrenos antes... e eu não gostei do "Menino do Pijama" também não, ficou aquela sensação de alguma coisa faltando... enfim....

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  4. Fora que a capa desse livro é uma referência quase plágio à John Boyne, na minha opinião.

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    1. A gente faz uma conexão mental bem rápido né?

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  5. Ainda estou ansiosa para ler, por que adoro livros relativos à Segunda Guerra, mas com certeza é um tema muito difícil para escrever seu primeiro livro!

    Paola
    uma-leitora.blogspot.com

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    1. Paola, é um tema complicado de se desenvolver, ainda mais com personagens infantis, mas, sim, sempre chama a atenção ;)

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  6. Luciano
    Concordo com você que para falar de 2ª Guerra Mundial e incluir o personagem Mika como você conta é muita coragem da autora para uma estréia. Eu gostei de O Menino de Pijama Listrado não pelo fato do pai isolar o filho da realidade dos campos de concentração etc, mas pela forma como o autor John Boyne conseguiu descrever a inocência do menino Bruno e fechar com um final sem palavras. Não li o livro ainda, mas acho que nós leitores também temos que nos eintegrar a essa fantasia esquecendo da realidade do lado de fora. Quem não assistiu o filme A Vida é bela e bateu palmas de pé ?
    Gosto muito de suas resenhas, mas acho que nessa falei demais ...:)

    Beijos
    Saleta de Leitura

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    1. Irene, discordar com embasamento é um dom! rsrsrs. Eu tive problemas com o "O Menino do Pijama Listrado" e com este, por isso destaquei na resenha que acredito que a fórmula não funcione comigo, mas não quer dizer que não funcione para outras pessoas. E boa lembrança de "A Vida é Bela", mas ali tínhamos o Benigni, e Benigni é gênio.

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  7. Eu gostei de "O Menino do Pijame Listrado", mas sabe, Boyne é Boyne. É claro que eu tenho a vontade de ler outros livros que explorem essa temática das Grandes Guerras, mas é preciso bastante esforço e pé no chão para ambientar um livro nesses moldes, até porque, para mim, livros que remetem à história, precisa ter personagens possíveis, que te deixa aquela sensação que ele pode ter mesmo existido.

    Eu leria "O Menino dos Fantoches de Varsóvia", mas sem esperar muita coisa. E cá entre nós, a capa e o título remetem muito a obra de Boyne...

    Abraços
    - pensamentosdojoshua.blogspot.com

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    1. Joshua, se você gostou do "Menino do Pijama Listrado", é bem possível que se saia melhor do que eu lendo o "Menino dos Fantoches", eu não saberia dizer qual dos dois é melhor, só me restou uma sensação de que faltou algo, e que terminei a leitura sem estar convencido.

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  8. Luciano, Segunda Guerra é um tema que me fascina também. Ultimamente tenho tido mais contato com a perspectiva dos japoneses, lendo Gen, Pés Descalços - acho que uma das maiores obras já produzidas sobre o tema, ainda mais sendo tão autobiográfica.

    Entendi perfeitamente em que sentido o protagonista não lhe convenceu. É a velha forçação de barra, tão hollywoodiana. Senti algo parecido quando cheguei ao fim de A Menina que Roubava Livros, tendo gostado bastante de todo o enredo e desenvolvimento do romance.

    Grande abraço.

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    1. Jéssica, eu tenho três volumes do Gen aqui em casa, o um, o dois e o cinco, tenho que correr atrás dos demais o quanto antes, sempre tive curiosidade com o mangá, desde a época da primeira edição fraquinha que a Conrad lançou. Sabe, me bateu essa impressão também, o que me deixou de pé atrás com livros ambientados na 2[ Guerra e protagonizados por crianças/adolescentes.

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  9. Pode me chamar de chata, eu deixo, mas acho que para fazer um personagem criança ser verossímil na literatura é preciso além de uma pesquisa forte em História da Infância. E história da infância não é fácil nem para os historiadores [e isso falo por experiencia própria sou pesquisadora em educação um tema que flerta com a história da infância]. Não é impossível fazer, afinal os documentos existem, as pesquisas também, basta ir no arquivo baixar as teses, mas demanda trabalho... para um livro de estreia é uma escolha bem pretensiosa néh?!?! E pelo visto a autora fugiu da história e entrou no caminho da fabula, mas até para escrever uma boa fabula é preciso ter boa base em história.

    Enfim, não entra na minha lista... Afinal, além de tudo, eu tenho um enfado profundo a respeito das duas grandes guerras do século XX... Lia muito sobre isso na aborrescência, depois teve a universidade, ainda tem a sala de aula... a menos que o livro seja muito bem escrito eu passo lindamente.

    Fiquei com esse comentário preso a semana inteira... \o/ Agora consegui \o/ huhu

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    1. Taí, não poderia ter dito com maior propriedade. Pesquisa é tudo, e em se tratando da Segunda Guerra como cenário, essa pesquisa tem que ser ainda mais meticulosa. Acho mesmo que a autora deu um pulo maior do que aguentaria na queda. Se espatifou.

      E quase sete dias pra comentaar! Ahhh, que é isso? rsrsrs

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  10. Nunca me interessei muito por O Menino do Pijama Listrado. E quando li a sinopse do livro aqui resenha fiquei com um pé atrás por conta do menino dos fantoches, mas li a resenha tendo esperança, porque tem autores que sabem dar aquela "fodacidade" a sua história. Mas acho que teria uma opinião próxima da sua se lesse. Um tema dessa proporção para ambientar um livro tem que se encaixar com fatores também reais, ou que se tornem reais na leitura.
    Parabéns pela resenha.
    sete-viidas.blogspot.com

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Oscar