4 de junho de 2014

Hit & Miss

Hit & Miss

Faz um tempo que terminei de assistir Hit & Miss e desde então vinha me cobrando um post sobre ela. Mas, justamente por ela ser um tipo de produto que não se vê todos os dias, daqueles que pegam o telespectador desprevenido, que o coloca para pensar, e, mais que tudo, deixa com uma tremenda saudade ao final, tive dificuldades em fazê-lo. O que consegui foi isso:

Criada por Paul Abbott, Hit & Miss conta a história de Mia, uma transexual que ganha a vida como assassina de aluguel, enquanto guarda dinheiro para custear uma operação de mudança de sexo. Ela é interpretada pela gigante Chloe Sevigny, uma das atrizes que mais respeito – que em 2012 pode ser vista interpretando a ninfomaníaca Shelley em American Horror Story: Asylum, e que mais recentemente protagonizou a complicada Those Who Kill – que dá vida a um personagem extremamente complexo, repleto de pequenas nuances e traumas que são trabalhados durante a narrativa.

Mia tem uma rotina bem definida, acorda pela manhã, faz exercícios, come regradamente, se encontra com seu empregador, e, durante à noite, executa seu trabalho. Até que Wendy, uma ex-namorada, lhe envia uma carta dizendo que está muito doente, já em estado terminal, e mais, que ela tem um filho, Ryan, um menino de onze anos que era filho dela com Mia, pedindo então que ela cuidasse do garoto.

A minissérie tem sua dinâmica baseada nesse fato: a descoberta de Mia de que tivera um filho, e a forma como poderia se relacionar com um garoto de onze anos, que nunca conhecera o pai e que, quando o momento chegasse, se depararia com uma mulher. Isso a faz com que ela tenha dúvidas sobre sua personalidade e percebemos então o quão frágil aquela mulher que segura uma arma com firmeza e tem uma precisão cirúrgica em seu trabalho é, e o quanto se esforça para manter uma aparente tranquilidade e, ainda mais importante, manter intacta sua sanidade mental que já tem de lidar com fatos por demais confusos.

A narrativa privilegia as relações e o sentimento que delas vêm: de ritmo lento, ela permite que o telespectador acompanhe de perto as mudanças que a descoberta de que possui um filho, e em sua chegada na casa de Wendy, causa nela, no garoto e em seus irmãos; e o quanto, no fundo, todos eles estão sozinhos. E esse sentimento de isolamento, daquela vibe de que toda pessoa é uma ilha, é aumentado exponencialmente graças à fotografia maravilhosa da série, com cenários rurais extensos, horizontes distantes, afastado de tudo, colinas verdejantes, e aquele cinza britânico que diz que pode chover a qualquer momento, que deixam ainda mais em evidência a pequenez dos personagens ante o ambiente, e a dificuldade que têm de lidar com o vazio que os cerca.

Assim como a trilha sonora, que casa muito bem com o que nos é mostrado.

Hit & Miss

Além do garoto que tivera com Mia enquanto ela ainda era “hominho”, Wendy tivera outros três filhos, Riley, uma garota de dezesseis anos que tem um caso com o senhorio, homem casado e repugnante; Levi um adolescente rebelde, quinze anos, desbocado, ingrato, cínico, que te dá vontade de arrebentar com a cara dele, até que você se lembra que quase tudo o que ele faz é pensando em sua família ou reagindo há algo que com eles aconteceu; além de Leonie, a caçula, uma menina doce, em meio aos lobos.

Vale muito à pena acompanhar a narrativa, aguardava com ansiedade a liberação de cada episódio, e o desenrolar dos acontecimentos me agradaram, apesar de difíceis, eles são justos, e discutem uma nova realidade que, se já existe há algum tempo, somente agora é discutida com mais transparência, sem vergonha de ser: da diversidade de gêneros, da pluralidade familiar, que vai muito além do tradicional pai-mãe-três filhos-uma amante em algum ponto da vida, e da busca pela sua própria identidade e o direito de ser feliz. Eu não posso ir contra isso, e os roteiristas tiveram a sabedoria de não militarizar nada nem tentar politizar ninguém: eles nos mostram como as coisas são; gostar delas ou não depende das nossas convicções pessoais.

Hit & Miss

Foram produzidos apenas seis episódios com cerca de cinquenta minutos de duração cada, por isso Hit & Miss é tratada como minissérie . O interessante é que a série nasceu de dois projetos distintos de seu criador: Abbott estava desenvolvendo uma série sobre um assassino de aluguel e outra sobre uma transexual, até que resolveu juntar as duas e dela obtivemos Hit & Miss. Apesar de ficar triste com o fim da trama, acho que não há do que reclamar quando tudo acaba de forma tão satisfatória.

Para os mais puritanos um aviso: em alguns episódios são exibidos nus frontais de Mia – com direito a piroquinha fake – consumo de álcool e drogas e cenas de sexo e violência.. mas, oras!, somos todos adultos, não?

 

Hit & Miss (Hit & Miss – UK, 2012) Criada por Paul Abbott. Com Chloe Sevigny, Jonas Armstrong, Karla Crome, Reece Noi, Jordan Bennie. Sky Atlantic. Créditos completos aqui.

{A+}

 

 

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16 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Anotando esta dica nesse exato momento!!! ADOREI!! Não conhecia.
    Mas você sabe que só acompanho as séries por aqui, vou anotando e quando posso compro. Não assisto tv, já te disse isso. Só assisto quando compro esses programas mesmo. Gosto de tê-los na estante. Nem netflix eu tenho, pois aqui ninguém vê nada.
    Somos todos do mato aqui em casa, rsrsrs. Acho melhor assim. Aí quando compro uma série dessas, nós todos sentamos na frente da tv e assistimos juntos.

    Dica pra lá de anotada.

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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    1. A minissérie é muito boa, quando ela terminou, o final é um tanto aberto, definitivo para algumas situações, mas ainda dava margem para continuações, achei e torci muito por uma segunda temporada, mas infelizmente não veio.

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  3. Oie,

    Uau fiquei bem curiosa com a minisérie afinal gostei das imagens do post e das suas palavras, vou ver se consigo assistir para depois comentar com você pelo face....=D...obrigado pela dica, pelos esclarecimentos e até a próxima...bjus elis!!!
    http://amagiareal.blogspot.com.br/

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  4. Graças aos céus, somos todos adultos!!! Em alguns aspectos é uma glória ser adulta! E sim, você merece um beijo, um queijo e uma flor por essa indicação e resenha bem feita Luciano. É uma proposta interessante, difícil de se ver, humana. Gosto de coisas assim e por todos os motivos que me destes, essa proposta já esta lindamente na minha lista!

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    1. Não é? Olha, vale a pena acompanhar, é tudo feito com muito bom gosto - até mesmo nos excessos! - e Mia é uma personagem por quem a gente inevitavelmente se afeiçoa. Eu gostei bastante.

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  5. Oi, Luciano!
    Fiquei interessada na minissérie, parece bem intrigante. Tenho percebido como a tv briânica vem investindo em séries envolvendo tema adulto. É um pouco absurdo como os americanos tratam os adultos jovens como eternos adolescentes!
    Vou procurar por essa série na web.
    Seu post foi instigante!
    Beijus,

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    1. Luma, eu admiro muito as produções britânicas, elas estão sempre um passo a frente das americanas; tem mais profundidade, trata dos assuntos de forma mais clara, enfim, gosto bastante do que é produzido lá. Vale a pena assistir ;)

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  6. HAUAHHAUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAH

    Agora eu preciso ver a piroquinha fake! MELHOR COMENTÁRIO EVER.

    Mas falando sério, a diversidade de gêneros nunca foi tão comentada e discutida, por isso, tá aí uma sinopse que se encaixa perfeitamente nos tempos de hoje. Fiquei muito interessada e com certeza vou procurar esta série. Eu adorei o fato da protagonista ter filhos - muitos filhos. Acho que isso deixa tudo ainda mais complexo.

    Começando a assistir em 3...2...

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  7. Acabei de assistir à série e, me diz, como é que eu vou viver agora sem saber o que acontece???? No geral, achei a série muito boa, mas muito complexa, com muito assunto para desenvolver, por isso, muitas pontas soltas. Claro que isso acontece com séries canceladas, mas eles bem podiam ter planejado, pelo menos, um episódio de fechamento =(

    To órfã...

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    1. Pois é! Eu acho que a séria ainda tinha muito fôlego, muita coisa pra trabalhar! Dá mesmo um saudade quando a coisa termina, a gente se sente órfão mesmo.

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  8. Eu nunca tinha ouvido falar nessa série, mas realmente a sinopse é bem interessante e gostei bastante da premissa de abordar essa questão de gêneros. Fiquei bem curiosa pra assistir. Vou procurar aqui.

    Bjk

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