9 de junho de 2014

O Lado Mais Sombrio – Splintered Livro 1, de A.G. Howard [Resenha #173]

O Lado Mais Sombrio Com Texto Sombreado


Sinopse: Alyssa Gardner ouve os pensamentos das plantas e animais. Por enquanto ela consegue esconder as alucinações, mas já conhece o seu destino: terminará num sanatório como sua mãe. A insanidade faz parte da família desde que a sua tataravó, Alice Liddell, falava a Lewis Carroll sobre os seus estranhos sonhos, inspirando-o a escrever o clássico Alice no País das Maravilhas. Mas talvez ela não seja louca. E talvez as histórias de Carroll não sejam tão fantasiosas quanto possam parecer. Para quebrar a maldição da loucura na família, Alyssa precisa entrar na toca do coelho e consertar alguns erros cometidos no País das Maravilhas, um lugar repleto de seres estranhos com intenções não reveladas. Alyssa leva consigo o seu amigo da vida real – o superprotetor Jeb –, mas, assim que a jornada começa, ela se vê dividida entre a sensatez deste e a magia perigosa e encantadora de Morfeu, o seu guia no País das Maravilhas. Ninguém é o que parece no País das Maravilhas. Nem mesmo Alyssa...


Releituras, versões, adaptações, está tudo na moda. De séries de tv como Once Upon a Time a filmes, como o mais recente Malévola, passando por livros, a nova onda é basear narrativas em clássicos universais, o que é uma via de duas mãos: se tem a vantagem do conhecimento prévio, da fácil penetração e assimilação de personagens ou mitologias ou mundos já bastante conhecidos, mas se tem de enfrentar o policiamento de fãs das obras originais. É um risco a se correr, e eu tenho pra mim que os prós compensam os contras.

Foi o que fez a autora A.G Howard. Ela pegou a obra máxima de Lewis Carrol, Alice, e inseriu nela não diria que novos elementos, mas situações e desdobramentos inimagináveis para quem, até então, se atinha à obra original.

De minha parte, conheço “Alice”" e o seu País das Maravilhas muito mais graças à Disney – cuja animação assisti às vésperas de um dos melhores Natais de que me lembro, eu com uns sete ou oito anos, passados na fazenda onde meus avós moravam – e ao Tim Burton que do livro em si. Jamais o li. E, se o fiz, foi através das centenas de adaptações nada confiáveis que se pode encontrar para o público infantil.

Reza a lenda – quem já leu o livro pode corroborar o que digo ou discordar de mim – que o livro original não é nada fácil. Existem jogos de palavras, entrelinhas, e muitas coisas mais que o senhor Carrol, poeta, romancista e matemático que gostava de tirar fotos de garotinhas em trajes mínimos, foi hábil em, li isso em algum lugar mas a referência agora me falta, esculpir e moldar, mais que escrever. Pra mim é um desafio, que ainda não aceitei. Mas, mesmo sem ter lido, acredito que bastam as linhas gerais, reconhecer os personagens, para que seja proveitosa a experiência com o livro.

Voltando ao “O Lado Mais Sombrio”, conhecemos Alyssa, uma descendente direta da Alice, a menininha original que entrou – ou caiu? – na toca do coelho. Sabe-se lá as razões, todas as mulheres da linhagem dessa Alice podem conversar com os animais e as plantas, e têm sonhos bastante perturbadores com o País das Maravilhas e os seres intraterrenos. A mãe de Alyssa, por sinal, está há alguns anos internada em uma casa de repouso, incapaz, acredita-se, de lidar com os seres falantes que lhe atormenta com seu palavrório.

Alyssa passa a desconfiar que sua mãe não é tão louca assim quando ela também começa a ouvir as flores e os insetos falando. Mas daí lhe vem uma questão que é cruelmente prática: o fato de ela também ouvir esses seres fazem de sua mãe uma mulher normal OU faz com que ela tenha sido brindada com uma genética não muito favorável e ela mesmo é também mentalmente doente? Dúvidas que não demoram muito a serem sanadas, pois estamos nas primeiras cinquenta páginas, e o livro tem que continuar.

Uma coisa bacana foi a autora ter atualizado a mocinha da vez, ela não é mais uma menininha inocente que toma líquidos suspeitos de garrafas estranhas. Agora ela o faz porque sabe que Alice o fez, então é o que tem de ser feito. Ela é uma adolescente com uma carência emocional enorme causada pelo afastamento da mãe e uma queda pelo vizinho que insiste em deixá-la na friendzone para, como não poderia deixar de ser, namorar sua antagonista, a garota perfeita do colégio que vive perguntando onde Alyssa enfiou o rabo do coelho – o fato de serem descendentes da Alice original é um fato conhecido, mas é importante frisar que eles conhecem a Alice original como a menina que inspirou Carrol a escrever o livro, e não como aquela que efetiva e realmente adentrou num buraco atrás de um coelho com muita pressa.

E a jogada de mestre da autora é dar um desdobramento inesperado à visita da Alice, ainda falando da primeira, ao País das Maravilhas. Ela fez alguma merda por lá e agora apenas uma descendente direta sua pode desfazer isso. Então, imaginem, há caos reinando em um mundo psicodélico onde a Helena Bonham Carter tem uma cabeça enorme e uma sede insaciável por decapitações! Então cabe a Alyssa – sua mãe, lembrando, também uma descendente da Alice, não aguentou a pressão e enlouqueceu – reverter todas as desordens que sua antecessora causou, mas ela terá algumas ajudas pelo caminho.

Sendo um livro voltado ao público jovem, claro que há romance e um improvável triângulo amoroso entre Alyssa, o vizinho que ela ama, e um ser intreterreno. Assim como reencontramos alguns personagens clássicos da história original, o que da um gosto bacana de reconhecimento quando os vemos entrando em cena.

Agora, eu sou um sujeito prático, então tive alguma dificuldade com o ritmo da narrativa. O livro acontece em primeira pessoa, o que é bom, mas, em se tratando de fatos que se passam em um lugar fantástico onde espaço, tempo e bom senso não fazem sentido algum, eu me perdi algumas vezes, A autora aposta em sensações, memórias, sentimentos, pensamentos e outros recursos que me faziam perder o foco, e algumas vezes tive que retroceder para checar se não me havia escapado algo. Não que o livro seja difícil, são os acontecimentos que são rápidos e, cliché, eu sei, quase nada do que nos é apresentado é realmente o que aparenta ser.

E isso é o que trás um combustível interessante à estória. Surpresas, reviravoltas e afins. Só acho que o livro se basta formatado como está, fico em dúvida se fazer dele uma série foi uma boa decisão.

 

O Lado Mais Sombrio, de A. G. Howard (Splintered, 2013 Tradução de Denise Tavares Gonçalves, 2014) – 368 páginas, ISBN 9788581633381, Editora Novo Conceito. [Comprar no Submarino]

{B-}

 

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13 comentários:

  1. Eu sou fã da história da Alice, meu lado sagitariano adorava as viagens dela, li o livro umas três vezes ao longo da adolescência, tentei contar a história a Rafaela [ela me fazia contar uma história a ela todos os dias antes de dormir] e foi assim que descobri que Alice não fazia sentido kkkk Rafaela ficava olhando para mim com cara de a gente pode voltar a "Branca de Neve"??? kkkk

    Enfim, eu gosto de Lewis, nem sempre acho que compreendo totalmente o livro, mas gosto... sou um pouco Alice me perdendo nessa coisa maluca que é a vida adulta, um país das maravilhas nada maravilhoso.... Mas "O lado mais sombrio" ainda não conseguiu me seduzi... e piora quando vejo que tem triangulo amoroso porque fácil fácil a autora pode perder o foco da missão de Alice para ir de encontro ao romance... e eu acho que estou pegando a tua doença e ficando avessa a muito romance no meio de certas histórias de aventura.... Pelo amor de Deus a pessoa não pode viver uma droga de aventura sem se apaixonar por no minimo dois carinhas no meio do caminho?!?! #FalaSério

    Enfim, antes que eu me esqueça, não sei se é porque estou trabalhando o Renascimento com minhas pestes, quer dizer alunos do sétimo ano, mas me ocorreu de repente que talvez de tempos em tempos valores/histórias/temas de séculos passados voltem a tona com novas cores... Acho que o século XIX está na moda \o/ Adoro \o/ É o meu século \o/

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    1. Eu concordo, acho que somos a geração do saudosismo. "Ah.. os anos 90... anos 80... anos 30... séculos passados". Daqui a pouco, surgem tribos vivendo nível idade da pedra hahaha seria nossa atualidade tão desconsolante que temos essa necessidade de buscar abrigo no passado, quando o mundo parecia mais simples?

      Eu também não li Alice, mas curto o universo. Embora eu seja mais team Dorothy quando se trata de pequenas heroínas.

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    2. Pandora, eu não sei, não consigo me conectar muito bem com coisas muito viajadas e/ou - como você diz - trabalhada na psicologia. Tenho dificuldades em acompanhar, por isso tenho protelado tanto a leitura de mais um livro da Anne Tyler.......e, sim, os triângulos estão tirando minha paciência! Fala sério!

      E, mais uma vez, sim, é incrível como gostamos de recordar, reviver....

      Dois abraços!

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  2. Só eu achei essa capa bizarra de feia? Sei lá, achei estranhona. Eu gosto desse tipo de proposta, quando se faz algo baseado num clássico, mas não se reescreve o clássico. Se uma história é boa, porque deixá-la no limbo, certo? Ainda assim, tenho minhas ressalvas mas enfim...

    A proposta do livro parece interessante, mas não aparenta ter o tipo de narrativa que mais me agrada. Eu acho que prefiro dedicar meu tempo a outras leituras.

    Abraços!

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    1. Hahahaha! Eu gostei da capa, ela é estranha, mas a Alyssa é uma pessoa estranha, então no final as coisas casaram bem. Eu gosto de histórias revisitadas, quando se curte um universo, é interessante quando alguém o expande - mas só quando, ao mesmo tempo, o respeita.

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  3. Eu sou o único empacado neste livro? Sério!
    História perfeita, argumento, tudo mas a narrativa não anda. Não gostei disso

    http://penelopeetelemaco.blogspot.com.br/

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    1. Sabe que também enganchei nele em alguns momentos?

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  4. Também fiquei surpresa quando soube que ele faz parte de uma série. Ainda não o li, mas as resenhas até que foram animadoras até agora. Confesso que não estou esperando tanto assim do livro, mas saber que a blogosfera está curtindo já é um ótimo começo (eu não estava botando tanta fé nele, não!).

    Beijão, Livro Lab

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    1. Aline, se eu soubesse que era uma série eu acho que nem começaria a ler, já tenho muitas em aberto. É bom começar a leitura sem muitas expectativas, a gente tem um retorno melhor assim.

      Dois abraços.

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  5. Concordo com a Lu pois sou da geração do saudosismo. Ainda não li o livro e confesso que estou ganhando um tempo para me preparar para essa leitura.
    Quando um autor usa uma obra clássica e mais ainda uma como Alice de Lewis Carrol criando um personagem descendente direto de Alice com mistérios, conflitos e romance vai com certeza gerar opiniões diversas.
    Já que considera bem formatado e que não vê necessidade de ser uma série como será que virá esse próximo livro? Agora quero ler e tirar minha próprias conclusões.
    Saleta de Leitura

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    1. Irene, o livro tem seus bons momentos, mas fiquei com o pé atrás com o fato de ele ser uma série, não sei se era necessário.........Também sou bastante saudosista, dá uma sensação boa reencontrar algo da infância...

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  6. É uma série?? Brincadeira né?
    Eu não sabia.
    Gosto dessas revisitadas nas histórias e tal. Será que foi muita propaganda pra pouca coisa?
    Preciso ler urgentemente pra tirar minhas conclusões.
    Adorei a resenha!!!

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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    1. Pois é, Lelê, me parece que é uma série sim..... fazer o que né? Mas acho que o primeiro livro se basta, no mais só se houver curiosidade mesmo.

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Oscar