30 de maio de 2011

Da Terra à Lua, de Júlio Verne [Resenha #020]

Há muitos anos não lia Júlio Verne. O último foi Os Conquistadores, um livro que em quase nada me lembrou os bons momentos deste grande mestre, e que, momentaneamente, guiou meus interesses para outro rumo, sem, no entanto, me fazer esquecer das grandes aventuras narradas em O Raio Verde, Cinco Semanas num Balão, Tio Robinson e Viagem ao Centro da Terra. Assim que, em minha última visita à biblioteca municipal, resolvi procurar por algum livro do grande autor francês que ainda permanecia inédito para mim, e me deparei com Da Terra à Lua.

No livro, os nobres membros do Clube do Canhão sentem-se entediados com a calmaria de um mundo sem guerras, então, para dar uma pitada a mais de emoção em suas vidas decidem atirar um projétil contra a Lua, fato impensável na época. A idéia conquista mais entusiastas que detratores, ainda mais quando um aventureiro francês se apresenta oferecendo-se para “embarcar” no projétil, sendo o primeiro homem a pisar na Lua. A ideia, por mais ridícula que possa parecer – e nos dias de hoje é, mas falo disso logo mais – acaba aceita, devendo partir junto com Michel Ardan – o tal francês – Impey Barbicane, presidente do Clube do Canhão, e seu maior rival, o Capitão Nicholl, convidado para o empreendimento por duvidar ferozmente do mesmo.

Ora, quando um americano tem uma ideia, procura logo outro americano que a partilhe com ele. Se chegam a ser três, elegem um presidente e um secretário. Se forem quatro, nomeiam um arquivista e a sociedade funciona. No caso de serem cinco, convocam uma assembleia geral e o clube fica constituído. Foi assim que sucedeu em Baltimore.

Da Terra a LuaDe longe era um dos livros de Verne que mais tinha vontade de ler. Ficava imaginando como seu cérebro inventivo e sua grande capacidade de descrição narrariam uma aventura deste porte, e, terminada a leitura, creio que me satisfez pela metade. Primeiro que, com os avanços que temos hoje, uma viagem à Lua a bordo de uma bala de canhão – mesmo que de um canhão gigantesco, acho até que tanto pior – parece bastante ridícula. Uma ideia, no mínimo, ingênua. Faz muito tempo que o homem pisou na Lua – ao menos assim dizem os americanos, meu pai, sensato como ele só, tinha suas dúvidas – e sabemos, ou podemos imaginar, toda a tecnologia empregada no projeto. No entanto, tem-se que levar em conta que em 1865, ano de publicação, o livro deve ter causado um impacto e tanto.

Segundo que em alguns momentos senti falta das grandes paisagens. Tudo bem que a Lua, em certo momento, é descrita belamente, mas o confinamento dos personagens em um projétil, vendo o mundo exterior por meio de vigias, limitou a elaboração de paisagens. Como descrever o vazio negro do vácuo sem cair na mesmice de dizer que é imenso, silencioso e frio? Não dá, nem mesmo pra Verne, ainda mais quando me lembro das paisagens de Cinco Semanas num Balão.

Mas o livro é ruim? Não. Há aventura, suspense, reviravoltas, e personagens memoráveis, como Maston, o secretário do Clube do Canhão. Se não é o melhor Verne que já li, também está longe de ser o pior. É inverossímil, fantasioso e datado pelos avanços científicos pós século XIX? É. Mas é daí? É um típico Verne prevendo as grandes aventuras humanas do futuro, e dando um show de imaginação que muitos contemporâneos nossos não seria capazes sequer de chegar perto.

Da Terra à Lua (De la Terre à la Lune , 1865) Júlio Verne, 126 páginas; ISBN 8506045398, Editora Melhoramentos

3,5

 

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11 comentários:

  1. Assisti o filme! :D Ainda vou ler o livro. O filme é bem antigo (1902). O mais antigo da lista dos "1001 filmes para ver antes de morrer", de Steven Jay Schneider e talvez a primeira ficção científica filmada. Classificado como filme, mas tem menos de 12 minutos de filmagem. Só consegui assistir porque um amigo possui a cópia. Seria interessante que assistisse. Assisti também "Os Batutinhas", de 1926. Muito legal!
    Luciano, você tocou em um ponto controvertido, já que hoje em dia os escritores mesmo com todas as ferramentas de divulgação, não perduram por tanto tempo nas estantes, imagina fazer sucesso por séculos! Não é somente de imaginação que precisam.
    Boa semana! Beijus,

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  2. Luma,

    Adoro filmes antigos, passo muito bem com os filmes exibidos na Futura, rs, tem muita coisa boa por lá, mas nunca assisti algo tão antigo, fiquei curioso! Verne é um escritor ímpar, bem a frente de seu tempo, tanto que pode ser lido hoje em dia quase da mesma forma como o era em 1800 e pouco. Fato raro, fato :)

    Beijo.

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  3. Fiquei com saudades de Verne! Não li esse livro dele, mas gosto muito de 20.000 léguas, A volta ao mundo em 80 dias e outros. Imaginação e segundo consta uma enorme coleção de mapas era tudo que ele precisava para escrever!
    bjs

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  4. Muito massa este novo layout, mais clean e tals, embora eu prefira a fonte Georgia a esta (aliás, prefiro a Georgia a quase qualquer outra, rs). Depois leio esta e a resenha anterior. Abração!

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  5. Bem, a única obra do Verne que li foi 20 Mil Léguas Submarinas, e gostei, embora não tenha achado "aquilo tudo". Ele é por vezes demasiado descritivista e, a depender do estilo de cada autor, de como ele desenvolve suas descrições e da frequência com que lança mão delas, nem sempre tal peculiaridade me agrada (às vezes, é até mais interessante que o texto deixe determinadas brechas na descrição de personagens, objetos e cenários para que nós, leitores, completemo-nas da nossa forma particular, agucemos nossas potencialidades imaginativas e sensoriais). Mas não se pode negar que o Verne é incrivelmente inventivo, possui uma imaginação fodástica, como você mesmo ressalta muito bem nesta resenha, além do importante fato de que ele previu muitos dos avanços tecnológicos e descobertas científicas, em diversos campos, de hoje: surpreendi-me ao ler em 20 Mil Léguas Submarinas a menção às lâmpadas de sódio e à comunicação e rastreamento através de uma espécie de sonar, tecnologias as quais equipavam o Nautilus, respectivamente um objeto e o domínio de um tipo de onda que só seriam realidade muitos anos depois, e a descrição de um fundo do mar à qual o grande escritor francês se serviu quase que tão-somente da sua imaginação - já que no séc. XIX não existia tecnologia suficiente para se desvendar os recantos submarinos -, não obstante de fato muito parecido com o que hoje já sabemos a respeito do mesmo. Abração!

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  6. Jussara,

    Verne é mesmo um grande autor, e sua habilidade descritiva também me espanta, tornando viva cada situação. Meus preferidos são O Ravio Verde, Cinco Semanas num Balão e Tio Robinson.

    Beijos.

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  7. Jorge,

    Nem sempre descrições pormenorizadas me agradam, pois podem acabar sendo enfadonho lê-las, mas no caso de Verne e Tolkien - mestres nessa "arte" - elas sempre me caem bem. Agora, pessoalmente, 20.000 Léguas Submarinas não é meu Verne preferido, não entraria nem em um Top 10 do autor. Me lembro de, quando o li, ter ficado desapontado com o livro, pois maravilhas são faladas dele, e não achei isso tudo. É claro que, especialmente neste livro, ele "prevê" muitas das coisas que viriam a ser realidade no futuro, mas a narrativa de uma forma geral não me agrada tanto. Prefiro os que já citei no post, e, se pudesse indicar um livro para que começassem a ler Verne, com certeza seria Cinco Semanas num Balão. O primeiro Verne, rs.

    Grande abraço.

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  8. Ai acho que tenho a impressão que não apreciaria essa leitura, mas gostei do modo que se expressou na resenha, afinal temos que levar em conta quando a obra foi escrita....ando sumida mas vou aparecendo de vez em quando..rsrs..beijokas mil elis

    http://amagiareal.blogspot.com/

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  9. Elis,

    Acontece, rsrs, mas Verne é sempre uma boa pedida de leitura descompromissada, e agradável.

    Beijos.

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  10. Eu nao entendi nada nesse livro, estamos trabalhando ele nas aulas de química , e por ser um livro com palavras dificeis de ser interpretadas, não consigo entende-lo.

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Oscar