4 de junho de 2012

Cruzando o Caminho do Sol [Resenha #53]

Cruzando o Caminho do SolSinopse: Sita e Ahalya são duas adolescentes de classe média alta que vivem tranquilamente junto de seus familiares, na Índia. Suas vidas tranquilas mudam completamente quando um tsunami destrói a costa leste de seu país, levando com suas ondas a vida dos pais e da avó das meninas. Sozinhas, elas tentam encontrar um modo de recomeçar a vida. Mas elas não devem confiar em qualquer um... Enquanto isso, do outro lado do mundo, em Washington, D. C., o advogado Thomas Clarke enfrenta uma crise em sua vida pessoal e profissional e decide mudar radicalmente: viaja à Índia para trabalhar em uma ONG que denuncia o tráfico de pessoas e tenta reatar com sua esposa, que o abandonou. Suas vidas se cruzarão em um cenário exótico, envolto por uma terrível rede internacional de criminosos. Abrangendo três continentes e duas culturas, Cruzando o Caminho do Sol nos leva a uma inesquecível jornada pelo submundo da escravidão moderna e para dentro dos cantos mais escuros e fortes do coração humano.
Em Cruzando o Caminho do Sol, nos deparamos com uma realidade assustadora: o tráfico de pessoas. Acostumados ao nosso cotidiano, é até difícil imaginar que isso ainda aconteça, mas ninguém é ingênuo o bastante para negar isso, e este choque perante a constatação da realidade é o foco do livro de estreia de Corban Addison.
 
Inicialmente mesclando passagens na Índia, acompanhando as irmãs Sita e Ahalya; e nos Estados Unidos, o jovem advogado Thomas, o livro já começa prometendo ser um interessante choque entre duas culturas tão diferentes, mas ao acompanhar as desventuras das irmãs fica bem claro que será bem mais profundo que isso. Acostumadas a uma vida confortável, vêm tudo destruído após a passagem de um tsunami que as deixam órfãs. Sequestradas, acabam aprisionadas em um bordel. Já Thomas, na tentativa de aplacar a dor causada por uma grande perda se afunda de cabeça no trabalho, negligenciando seu casamento e sua esposa – a indiana Priya – em parte se esquecendo de que ela também partilhava desta dor, de modo que se separam e ela retorna para sua terra natal. Pouco depois ele é “convidado” pela empresa onde trabalha a tirar um ano sabático, e neste momento, onde parece estar sem saída, decide partir para a Índia, trabalhar em uma ONG, ao mesmo tempo em que tentará se reaproximar de sua esposa.
 
Aqui o livro fica sério. Thomas começa a trabalhar em uma ONG que combate o tráfico de mulheres, o que permite uma ligação entre ele e as irmãs Ahalya e Sita.
 
Addison faz um bom trabalho ao traçar a personalidade de cada um e como a forma como foram criadas as levam a  reagir aos acontecimentos: as irmãs, mesmo sofrendo muito, encaram a situação como sua cultura as leva a fazer, ou seja, tudo o que acontece com elas se dá por um desígnio divino, por um plano maior dos muitos deuses da cultura indiana. E, mesmo nos momentos em que se questionam mais profundamente – e isso mesmo os cristãos fazem muito – quando se perguntam o porque de aquilo estar acontecendo com elas, a fé acaba suplantando as dúvidas, mas, ao mesmo tempo, deixando-as apáticas, na típica alienação advinda da religião, sem forças para lutar contra a situação, pois se trata da vontade de uma entidade superior, algo que, independentemente do que fizessem, aconteceriam à elas.
Sumeera percebeu o mal-estar das meninas e fixou em Ahalya um olhar resignado.
– Eu já fui como você – ela disse. – Eu também fui tirada de casa e trazida para cá por homens que eu não conhecia. A vida na adda é dura, mas você tem que aceitar. Não adianta lutar contra seu carma. Aceite a provação que Deus impôs e talvez você renasça em um lugar melhor.
- página 66
Quanto a Thomas, no começo o achei fraco, mas não é isso. Um homem que perde a família de uma hora para a outra e vê seu emprego por um triz fica desajustado. Se de uma forma qualquer ele consegue avaliar sua situação e partir em busca de soluções para ela, então ele tem todo o meu apoio. O que acho importante dizer é que ele não é um herói de capa e espada, tampouco Ned Stark. Mas estas pequenas falhas de caráter que se podem perceber nele facilmente apenas o identificam como humano, e seria cínico de minha parte apontar o indicador por isso.
 
Do outro lado da história, o mais real e menos romântico, as descrições de como o esquema de tráfico humano funciona, e quantas pessoas ganham muito dinheiro comercializando vidas impressiona. Sei que se trata de uma obra de ficção, mas o autor fez uma extensa pesquisa sobre o assunto, de modo que seu livro fosse o mais próximo possível da realidade. Os ambientes descritos são repugnantes, e não se restringem somente à Índia: em sua busca, Thomas parte para a França e  os Estados Unidos, e em todos eles as condições de vida são degradantes – e não se enganem, mesmo as mansões nestes casos oferecem riscos.
 
Porém, considero que o autor falhou somente ao indicar as razões pelas quais essas garotas não fogem. Claro que as ameaças físicas devem ser constantes e bem contundentes, e também, no livro, houve a aceitação trazida pela cultura, mas já vi em alguns lugares menções ao vício em entorpecentes que impedem que elas fujam – os sequestradores viciam essas garotas, para que, dependentes, e no estado letárgico que o uso de alguns tipos de drogas causam, se tornem mais fáceis de controlar. Pessoalmente, creio ser uma razão mais eficiente que castigos físicos e ameaças.
 
Corban escreve bem, mas seu texto não tem nada de maravilhoso, nada que te leve a dizer: “nossa, Addison é um de meus autores favoritos”. Ele tem um texto muito correto, limpo, mas é só. Falta o algo a mais, aquilo que nos faça cair o queixo e aplaudir a genialidade de um escritor. É bom, sim, nos entrega o que promete – o que é excelente em se tratando de uma estreia, e nos faz esperar por resultados ainda melhores no futuro.


Cruzando o Caminho do Sol (A Walk Across the Sun, 2012Tradução de Mariângela Vidal Sampaio Fernandes, 2012) Corban Addison – 448 páginas, ISBN 9788581630090,  Editora Novo Conceito. [Comprar no Submarino]
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44 comentários:

  1. Eu estou ansiosa para ler este livro, estou com ele aqui na fila de espera, mas realmente não sei o que esperar dele, talvez agora eu tente não esperar muita coisa, porque achei que talvez o Corban fosse um autor maravilhoso, mas enfim... a história é ótima.

    Tudo Tem Refrão

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    1. Ágata, é um bom livro, como eu disse, só que o autor não é brilhante: ele cumpre seu papel e só, falta aquele plus.

      Mas leia ;)

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  2. A ficção quando lida é a realidade, não imagino um autor escrevendo sobre um assunto sem estudar bem sobre o que está falando, isso torna a obra autêntica.

    http://enfimshakespeare.blogspot.com.br/

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    1. Concordo, mas esse estudo, em determinados casos, pode ser bastante superficial.

      Abraços.

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  3. Vou ler, depois digo o que realmente eu acho!
    Resenha limpa e clara!LINDA!


    Selene Blanchard
    Blanc – ModaeEu.blogspot.com – TEM PROMOÇÃO COM BlackBerry, E OUTRAS ESPECIAIS
    Espero sua visita!

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  4. Tem livro que a gente ler e sente: "Esse livro deu trabalho ao autor." Sinto que esse livro é um desses e sim, admiro todo trabalho que nasce de uma pesquisa, como é caso, que se pauta na realidade e tem por trás a intenção de, quem sabe, gritar por alguém que não tem voz suficiente para isso!!!

    O trafico de gente é um escândalo, uma das piores coisas do capitalismo é que nós aprendemos a aceitar o escândalo e seguir nossas vidas pensando que não podemos fazer nada a respeito. Isso me deprime e faz com que eu me sinta uma pessoa pior rsrs #TôDrpeHoje

    Enfim, talvez o foco do autor desse livro seja mesmo esse entregar um texto limpo, mas não brilhante... De toda forma aceito melhor livros assim do que os que vem de autores que fazem malabarismo narrativos e deixam a peteca cair. #Chata

    Cheros Luciano, como sempre ótima resenha, e sim, esse entrou para a lista.

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    1. Pandora,

      O livro é bom, mas não encanta.TAlvez nem fosse mesmo para encantar pelo enredo - que trata de um dos problemas mais séries de nossa sociedade, é verdade - mas acho que o autor deveria fazer com que nos sentíssemos presos a ele. Isso não acontece. Mas leia sim, vale à pena ;)

      Abraços.

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  5. Fiquei interessada por essa sinopse, mas sempre tive um certo receio de que acabaria por ler mais um livro do James Patterson, escrito por outra pessoa. Agora vejo que não, e acho que vou aumentar ainda mais minha fila de leitura e comprar esse título.

    Abraços

    Lu Tazinazzo
    http://aceitaumleite.blogspot.com.br

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    1. Lu, e eu ainda tenho que ler o Patterson que está aqui...acho que este mês consigo ;)

      O Addison escreve bem, mas falta alguma coisa, acho que com o tempo ele se aprimora.

      Abraços.

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  6. Esse livro é o próximo da minha lista de leiturasEmbora você tenha sentido falta daquele elemento que traz um certo encantamento pela história, eu acho que vou gostar. Depois que eu acabar de ler eu volto pra dizer o que achei.

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    1. Cris, eu gostei, mas faltou algo que me prendesse a ele. O autor escreve bem, mas parece que ele apenas faz a lição de casa, não capricha pra ganhar uma estrelinha. Tipo assim, rs.

      Boa leitura.

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  7. EStou curiosa para ler, pois trata de um assunto muito sério e espero gostar.

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    1. Irene, o tema é muito bem retratado pelo autor, mas achei que faltou ao livro aquele "tchan" para me prender completamente a ele. Mas é interessante, leia ;)

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  8. Parece que todos os livros da Novo Conceito que recebem notas boas são angustiantes... Mundo Brilhante, Garotas de Vidro e agora esse! Tráfico de meninas e prostituição... assustador! A sinopse lembra um tantinho o primeiro volume da série Millenium.

    Eu não sei se quero ler não... mas vou participar da promoção, ganhar, guardá-lo por um tempo e ver se eu me arrisco.

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    1. Sharon, eu gosto muito de livros que passam esta sensação. Admiro o escritor que sabe explorá-la, talvez seja isso.

      Mas olha, o livro é bom, estou certo de que gostará.

      Abraços.

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  9. Parece ser bem legal o livro tomare que eu ganhe para eu ler.

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  10. Já tinha visto este livro mais não tinha dado tanta atenção...mas agora com esta resenha minha curiosidade foi aguçada...a vontade de ler aumentou bastante...uma história que envolve advogados, tráfico culturas e países diferentes...bem acho que irei gostar :)

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    1. Renata, espero que goste. Addison soube descrever bem a diferença de culturas orientais e ocidentais.

      Abraços.

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  11. Oiii..Adorei a sua resenha, já tinha lido algumas resenhas desse livro antes, e tinha me interessado muito, ainda não pude ler esse livro..bjs

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    1. Dryh, o livro trata de um tema interessante, e o autor soube conduzir a narrativa. Não é brilhante, mas tenho certeza de que vai gostar ;) Beijos.

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  12. A resenha ficou ótima.
    Corban parece ser muito talentoso.
    É um tipo de assunto que me agrada ler, mesmo sendo um assunto pesado... é real.

    beijos

    Amy

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    1. Aymée, por ser o primeiro livro, Corban tem muito talento, os próximos tem tudo para serem ainda melhores ;)

      Beijos.

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  13. Todo mundo me fala que esse livro é ótimo. Espero que seja mesmo, porque eu estou doida para ler.

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    1. Jeniffer, eu gostei bastante, acho que vai gostar de lê-lo ;)

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  14. Estou doidinha pra ler,adorei á resenha ,histórias que envolve tráficos de pessoas ainda é realidade em muitos lugares,bjs.

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    1. Marta, é uma assustadora realidade! O livro serve como denúncia, e mostra muito bem esse submundo.

      Beijos.

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  15. parece ser legal, + um pra minha lista d leitura!!!

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  16. mutio interessante! To doida pra ler!

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  17. o meu gênero preferido é fantasia, mas esses temas que abordam fatos que podem ser reais, que trazem algo produtivo pras pessoas me interessam bastante, esse é um livro que lerei com certeza

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    1. Mateus, também gosto muito de fantasia, mas tenho uma queda por romances policiais, e este tem um "quê" deles!

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  18. O livro parece ser aquele que te prende na leitura, não vejo a hora de ler *-*

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    1. Jessica, o livro é muito bom, e prende mesmo ;)

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  19. ótima resenha... Não sei se o livro faz muito o meu estio literário mas vou dar uma chance!! ^^)

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    1. Andreza, o melhor sempre é ser aberto à novas experiências literárias ;)

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  20. Gostei muito da resenha. Agora fiquei curiosa e quero muito ler o livro!

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  21. Bom, o livro me parece muito bom apesar de ser pesado. Talvez o autor tenha evitado citar o processo de vício de entorpecentes com as pessoas para que não deixa-se tudo ainda mais pesado. É importante pensar também, que na Índia as mulheres tem um postura diferente das brasileiras em questão dos homens e sua postura em frente a sociedade. Acredito que isto seja relevante também.
    Parabéns! A resenha está ótima!
    Um beijo ;*

    Juliana . Oliveira
    http://www.trocandoconceitos.blogspot.com/

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    1. Juliana,

      com certeza as diferenças culturais e religiosas entre Brasil e Índia explicam muitas das situações, mas não há dúvidas de que o mesmo também ocorre em nosso país...

      Beijos.

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  22. Eu acho que esse livro tem um bom enredo, uma boa história. Mas não sei se realmente irei gostar. Não sei o por que. Mas, enfim, tenho curiosidade em ler sim.

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    1. Elis, o livro é tenso em alguns momentos, mas as partes em que descreve a Índia e seus costumes também se sobressai. Vale a pena ler ;)

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  23. Nunca li mto a respeito do tráfico de pessoas, e sou sincera em dizer que até evito esses temas ásperos, entretanto em nome de ser uma melhor pessoa e profissional acredito que entrar em contato com o tema através do livro é o mínimo que eu possa fazer...

    Miquilis: Bruna Costenaro

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    1. E ainda por cima terá uma boa leitura. Corban escreve bem, sabe cativar. Apesar de ser o primeiro livro, pode-se notar que ele leva jeito para a escrita ;)

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  24. *.* Nossa
    eu só passei os olhos por cima da resenha, não estou afim de obter muitos detalhes antes de ler o livro, quero descobrir a história aos poucos :3
    e que capa linda
    @Mayh_Fernandes

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  25. Oi! Tudo bem?! Gostei muito do livro, a estória é interessante e por retratar uma realidade deixa tudo mais intenso. Assim como você acho que o autor não nos envolve de maneira mais intensa, e com certeza falta algo a mais em sua maneira de escrever. Apesar de tudo, não deixa de ser um bom autor. Fiz a resenha deste no meu blog, se tiver interesse ou mera curiosidade, dê uma passadinha por lá!
    Bjs, Ruama.
    http://esquiloscorderosa-ruama.blogspot.com.br/

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Oscar